[f i l m e s d o c h i c o]

31 de out de 2006

[mostra de cinema de são paulo - boletim 11]

[mostra de cinema de são paulo - boletim onze]


[o sol ]
direção: Alexander Sokurov.

The Sun/Solntse, 2005. Sokurov fecha seu ciclo dos grandes líderes com um belíssimo réquiem para Hiroito, que ganhou um intérprete soberbo em Issey Ogata, que entendeu tudo o que o filme exigia. Seu protagonista esconde no discurso aleatório o imenso senso de responsabilidade que guarda. Ao contrário de Hitler em Moloch e Lênin em Taurus, o isolamento do imperador japonês não tem a mesma câmera imensa e os planos abertos dos outros dois filmes. A bela fotografia, desta vez assinada pelo próprio cineasta, privilegia espaços menores, condenando Hiroito à claustrofobia. A cena do bombardeio de Tóquio é magnífica.

Com Issey Ogata, Robert Dawson, Kaori Momoi, Shiri Samo.

[o caso mattei ]
direção: Francesco Rosi.

Il Caso Mattei, 1972. Competentíssimo documento de Francesco Rosi, que ganha três planos de ação: o da investigação sobre a morte de Mattei, os flashbacks de sua história e o do processo de coleta de material para o próprio filme, assumindo uma metalinguagem tão bem inserida quanto os flashbacks. Gian Maria Volonté, um dos maiores atores do cinema político italiano, mais uma vez, está perfeito.

Com Gian Maria Volontè, Luigi Squarzina, Gianfranco Ombuen, Edda Ferronao.

[síndromes e um século ]
direção: Apichatpong Weerasethakul.

Sang Sattawat/Syndromes and a Century, 2006. O filme de Apichatpong Weerasethakul, a princípio, se apresenta com um exemplar do cinema oriental que finalmente parece genuíno ao tratar do microverso do cotidiano, dos pequenos amores, dos detalhes. Mas depois de estabelecer personagense dramas, o tailandês nos explica que seu filme é sobre o mundo em construção. E, como conseqüência, é o cinema em construção. Neste renascimento do filme, há um momento que condensa a experiência do diretor, quando numa passarela, dois grupos se cruzam, como se Weerasethakul saudasse o duplo e instalasse seu cinema num tempo zero, onde a história sempre amanhece outra vez, sempre de outro jeito. E então, numa cena casual, num momento em que nada parecia ser mais genial, meus olhos se enchem d'água quando a câmera se move e revela que a velha doutora tailandesa estava ali, me olhando, testemunhando tudo o que eu acho que descobri.

Com Nantarat Sawaddikul, Jaruchai Iamaram, Sophon Pukanok, Jenjira Pongpas, Arkanae Cherkam.

[hamaca paraguaya ]
direção: Paz Encina.

Hamaca Paraguaya, 2006. A princípio, me incomodou bastante a radicalização da forma, que pareceu mais pretensiosa do que qualquer coisa, mas Paz Encina merece todos os créditos por ter sustentado sua proposta estética do começo ao fim e, exatamente no fim, reafirmando, justificando e validando suas opções. Os quadros fixos são muito longos, o que demanda uma disposição bastante razoável do espectador. A sobreposição dos diálogos, também utilizada de maneira radical, transforma cada cena em duas, criando um efeito narrativo ousado e reforçando o potencial dramático da história, que certamente seria mais uma inócua pequena história de gente simples contada de outra forma.

Com Georgina Genes, Ramón del Río.

[luzes na escuridão ]
direção: Aki Kaurismäki.

Laitakaupungin Valot, 2006. Kaurismäki encerra sua trilogia dos perdedores com uma história apática, rodada de maneira apática e com um protagonista que, de tão apático, até demanda certa identificação. A meu ver, é um modelo de pessimismo esgotado que não funciona mais - eu, inclusive, nunca achei que tivesse funcionado, mas estou sozinho nesta - nem com a apropriação de um noir transviado com direito a loira fatal e tudo. A sucessão de tragédias na vida do guarda noturno é exagerada demais que somente escapa da comparação com novelas mexicanas por causa da direção fria do finalndês. Koistinen é um anti-herói pelo qual não dá gosto torcer.

Com Janne Hyytiäinen, Maria Järvenhelmi, Maria Heiskanen, Ilkka Koivula.

30 de out de 2006

[mostra de cinema de são paulo - boletim 10]

[mostra de cinema de são paulo - boletim dez]



[candy ]
direção: Neil Armfield.

Candy, 2006. Um filme que sobrevive muito do talento de Heath Ledger, que se firma como bom ator. A história é sobre as agruras de um casal junkie com todos os clichês das histórias sobre um casal junkie. É bem cuidadinho, tem bons coadjuvantes e uma dupla central bem à vontade, mas, apesar do texto absorver bem a poesia do protagonista, nunca tem nada de novo a oferecer. Perdida no meio disso tudo, uma cena bem forte, quase assustadora, num hospital.

Com Heath Ledger, Abbie Cornish, Geoffrey Rush, Noni Hazlehurst, Tony Martin.

[still life ]
direção: Jia Zhang-Ke.

Still Life, 2006. Na China atual, muita gente vaga em busca de se reconstruir. Então, não é tão irônico que uma dessas pessoas, o protagonista de Still Life, seja um homem pago para demolir? Em sua busca pela ex-esposa e pela filha que mal conheceu, ele tenta colocar de pé o que restou de sua humanidade. No caminho, nos ajuda a entender que a China é um país extremamente cruel com seu povo, que vive na miséria à margem da revolução econômica e tecnológica que é o cartão postal do país. Um belo filme cuja projeção tosca deixou menor. Embora o trabalho de fotografia não chegue aos pés dos outros filmes do diretor, há alguns achados. E Zhang-ke é um encenador de primeira (o menino cantor é uma das melhores coisas desta Mostra), sabe exatamente onde colocar cada elemento, onde posicionar a câmera e quando fazer uma nave levantar vôo.

Com Zhao Tao, Han Sanmig.

[histórias tenebrosas ]
direção: Richard Oswald.

Unheimliche Geschichten, 1919. Curiosa coleção de história de terror do cinema mudo alemão, com os mesmos três atores principais dando vida a textos de diferentes atores. Os dois homens - um deles Conrad Veidt, que viria a se tornar o Caligari - são excelentes. Embora já haja um bom trabalho de iluminação, a câmera ainda é muito fixa e o teatro se faz presente. Os dois primeiros episódios são os mais fracos. O Gato Preto, de Edgar Allan Poe, e O Clube dos Suicidas, de Robert Louis Stevenson, ganharam versões deliciosas. Curiosamente, é o último conto, escrito pelo próprio Richard Oswald, que flerta bastante com a comédia, o mais bem resolvido de todos. O acompanhamento musical ao vivo, e de improviso, a princípio não parecia adequado, mas foi ficando bastante feliz ao longo da sessão.

Com Anita Berber, Conrad Veidt, Reinhold Schünzel, Hugo Döblin, Paul Morgan.

[half moon ]
direção: Bahman Ghobadi.

Niwe Mung, 2006. Durante boa parte, é uma comédia com excelentes momentos de crítica às instituições. Parecia ser o melhor filme de Ghobadi, que, simpaticíssimo, apresentou a sessão. Parecia justamente porque parecia ser seu filme com menos trejeitos de pequenas e belas histórias tristes. Mas o tom do longa muda bastante com o passar do tempo, alternando alguns momentos inspiradíssimos e outros em que o diretor parece apenas se repetir. Um filme para se pensar mais. Com um final surpreendente.

Com Ismail Ghaffari, Allah Morad Rashtiani, Farzin Sabooni, Kambiz Arshi, Sadiq Behzadpoor.

29 de out de 2006

[mostra de cinema de são paulo - boletim 9]

[mostra de cinema de são paulo - boletim nove]



[o cheiro do ralo ]
direção: Heitor Dhalia.

O Cheiro do Ralo, 2006. Espero que a cotação não desanime ninguém de ver o filme porque ele merece ser visto. Primeiro, é um filme muito melhor do que Nina, a estréia fraquinha do diretor que transformou Dostoiévski em plástico modernete. Há uma parcimônia muito maior em toda a concepção técnica, tão exagerada no filme anterior: a direção de arte é acertadíssima. A relação do protagonista com a memória de seu pai é muito boa. No entanto, o texto é desequilibrado, com alguns momentos brilhantes, como a cena em que Lourenço não reconhece a nova garçonete ou quando ele finalmente consegue comprar seu maior objeto de desejo (cena que uma platéia ou despreparada ou nervosa achou muito engraçada), mas há momentos toscos em que o filme parece estar à sombra da literatura pulp americana, como em qualquer cena no banheiro. E o excesso de gracinhas com os coadjuvantes incomoda.

Com Selton Mello, Silvia Lourenço, Flavio Bauraqui, Alice Braga, Milhem Cortaz, Dionísio Neto, Abrahão Farc.

[edmond ]
direção: Stuart Gordon.

Edmond, 2005. Acho que foi o pior David Mamet que eu vi na vida. As reflexões filosóficas soam artificiais o tempo inteiro e eu não consegui comprar o protagonista desde a discussão entre o casal, apesar da visível dedicação do William H. Macy. O elenco feminino está muito bem, com um destaque especial para Mena Suvari, linda e excelente em cena, mas a beleza das meninas não esconde a falta de tato tanto na transposição do texto de uma peça para o cinema (o filme tem cacoetes de palco ao longo de toda sua duração) e na própria fragilidade deste texto, que culmina numa espécie de Um Dia de Fúria mais under, com um final bastante clichê.

Com William H. Macy, Julia Stiles, Mena Suvari, Bai Ling, Joe Mantegna, Denise Richards, Rebecca Pidgeon.

[cabíria ]
direção: Giovanni Pastrone.

Cabiria, 1914. Realmente impressionante não apenas a dimensão, como a extrema eficácia em coordenar todo o espetáculo com direito a bastante invenção, como a utilização dos avós dos trilhos cinematográficos, a noção de posicionamento de atores e as truncagens. Os cenários gigantescos são tão bonitos quanto os de Intolerância, do Griffith, e emprestam a imponência que o filme exige. O acompanhamento musical ao vivo, cortesia do maestro Stefano Maccagno, foi uma experiência instigante. Pena que ainda tenha tanta gente que não esteja preparado para ir ver um filme mudo, de 1914, de três horas, e não saiba se comportar no cinema. Quem chamou?

Com Lydia Quaranta, Teresa Marangoni,Dante Testa, Umberto Mozzato, Bartolomeo Pagano.

[shakespeare mudo ]

[rei joão (Grã-Bretanha, 1899) ]
direção: William-Kennedy Laurie Dickson.
[a tempestade (Grã-Bretanha, 1908) ]
direção: Percy Stow.
[sonhos de uma noite de verão (EUA, 1909) ]
direção: J. Stuart Blackton e Charles Kent.
[rei lear (Itália, 1910) ]
direção: Gerolamo Lo Savio.
[noite de reis (EUA, 1910) ]
direção: Charles Kent.
[o mercador de veneza (Itália, 1910) ]
direção: Gerolamo Lo Savio.
[ricardo III (Grã-Bretanha, 1911) ]
direção: F.R. Benson.

O resgate histórico é talvez mais importante do que os próprios filmes, já que alguns são bastante rústicos, como Rei João, que tem apenas uma cena (ou de que só restou uma cena) ou os fraquinhos O Mercador de Veneza e Ricardo III, este praticamente teatro filmado. Mas há filmes bem bons, como Rei Lear, que já anunciava a pintura à mão quadro a quadro da película, um filme todo em locação, o delicioso Sonho de uma Noite de Verão, com um humor inspirado, e o melhor de todos, A Tempestade, cheio de truncagens, efeitos, recortes, sobreposições. Filme de gente que sabia que o cinema era outra coisa.


 
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