[f i l m e s d o c h i c o]

31 de jan de 2006

A Marcha dos Pingüins

Corações congelados




A Marcha dos Pingüins é um filme fofo. Esta é sua maior qualidade; esse é seu imenso defeito. Qualidade porque foi esta característica que fez sua fama, que conquistou seu público, que buscou a aproximação. Acho louvável que um diretor procure causar identificação com o espectador. Mas este mérito no documentário de Luc Jacquet não cruza a sala-de-estar. Desde os primeiros momentos em que as vozes dos dos pais pingüins entram em cena, entramos em contato com um dos textos mais piegas dos últimos tempos, um texto quase vergonhoso, embalado numa trilha sub-Björk sem a mínima graça (e com trechos letrados dolorosos).

A própria natureza do ciclo de reprodução dos pingüins já tem drama suficiente para emocionar o público. Tudo é tão bonito, as imagens são tão fortes. Os pezinhos para cima e tudo. Para que então o artifício de "humanizá-los"? É de lascar. Ainda mais quando a intenção é de coopção total, sem retorno, sem alternativa de fuga. No início, eu ainda achei que o resultado seria algo como em Benji, o que já não teria tanto crédito, mas a coisa fica pior porque o roteiro não tem a mínima vergonha de apelar no melhor estilo novelão mexicano. Eu, se fosse um pingüim imperador, me sentiria insultado.

A Marcha dos Pingüins
La Marche de L'Empereur, França, 2005.
Direção: Luc Jacquet.
Roteiro: Michel Fessler, com história de Luc Jacquet.
Elenco: Charles Berling, Romane Bohringer, Jules Sitruk.
Fotografia: Laurent Chalet e Jérôme Maison. Montagem: Sabine Emiliani. Música: Emilie Simon. Produção: Yves Darondeau, Christophe Lioud e Emmanuel Priou. Site Oficial: A Marcha dos Ping6uins.Duração: 85 min.

nas picapes: I Fall Apart, Cameron Diaz.

Crime Delicado

A arte em sua essência




Eu realmente me impressiono com a unanimidade em relação a este filme porque, na minha opinião, ele é a primeira bola fora de Beto Brant. O filme, baseado num texto muito pretensioso e pouco convicente de Sérgio Sant'Anna, que tenta incorporar a arte (ou as artes) à, digamos, essência da vida. Isso me soou pedante, metido à besta e mal resolvido. Esta preocupação é o eixo central do roteiro, que deixa escapulir, talvez conscientemente, uma história mais consistente para o protagonista. Os intermezzos com as encenações de teatro são longos demais para um filme tão curto. E a melhor cena - quem diria? - é a protagonizada pelo intragável Cláudio Assis, diretor de Amarelo Manga (2003), que está excelente (e parece bêbado).

Crime Delicado
Crime Delicado, Brasil, 2005.
Direção: Beto Brant.
Roteiro: Marçal Aquino, Marco Ricca, Beto Brant, Maurício Paroni de Castro e Luís F. Carvalho Filho, baseado em livro de Sérgio Sant'Anna.
Elenco: Marco Ricca, Lilian Taublib, Felipe Ehrenberg, Maria Manoela, Zecarlos Machado, Matheus Nachtergaele, Marcélia Cartaxo, Lourdes Hernández-Fuentes, Mário Schonenberg, Denise Weinberg, Nélson Perez, Alberto Guzik, Tácito Rocha, Cláudio Assis, Suzan Damasceno, Renata Bastos, Kelly McQueen, Xico Sá.
Fotografia: Walter Carvalho. Montagem: Willem Dias. Direção de Arte: André Montenegro. Figurinos: Joana Porto. Música: Caco Faria e Álvaro Fernando. Produção: Bianca Villar, Renato Ciasca e Marco Ricca. Duração: 87 min.

nas picapes: Judas, Raul Seixas.

29 de jan de 2006

Post de Aniversário

Três anos depois...

Eu juro que nunca imaginaria que fosse chegar neste ponto. A idéia de ter um blogue sobre cinema me parecia meio metida à besta até eu conhecer páginas que me inspiraram, perder a vergonha e fazer isto aqui. Nem sempre as coisas saem como eu quero, nem sempre o tempo permite uma pesquisa ou um texto melhorzinhos. Mas este blogue me dá muito prazer. Com ele, eu conheci pessoas que, mesmo à distância, fazem, de certa forma, parte do meu cotidiano. Foi nele que foi proposta a criação da Liga dos Blogues Cinematográficos e do Alfred. É nele que eu perco a paciência (e a educação) de vez em quando por sempre estou passional demais para falar de um filme de que eu gosto ou não. O Filmes do Chico completa hoje, entre blogger e blogspot, três anos de vida.

Como não poderia deixar de ser, uma lista dos melhores filmes dos três anos de Filmes do Chico:



1 Elefante, de Gus Van Sant.

O filme sobre a construção da verdade.

2 Antes do Pôr-do-Sol, de Richard Linklater.

O filme sobre o amor.

3 Marcas da Violência, de David Cronenberg.

O filme sobre voltar para casa.

4 Reis e Rainha, de Arnaud Desplechin.

O filme sobre estar vivo.

5 Gangues de Nova York, de Martin Scorsese.

O filme sobre violência que cria.

6 O Pântano, de Lucrecia Martel.

O filme sobre querer respirar.

7 Kill Bill: Vol. 1, de Quentin Tarantino.

O filme sobre a mais bela vingança.

8 Clean, de Olivier Assayas.

O filme sobre a fênix.

9 A Viagem de Chihiro, de Hayao Miyazaki.

O filme sobre a imaginação.

10 X-Men 2, de Bryan Singer

O filme sobre a diferença.

e mais: A Última Noite + Um Filme Falado + O Prisioneiro da Grade de Ferro + Terra dos Mortos + A Vida Marinha com Steve Zissou + Encontros e Desencontros + Homem-Aranha 2 + Filme de Amor + Whisky + Escola de Rock

P.S.: obrigado a todos que, de uma forma ou de outra, fizeram parte disso aqui comigo: Marcelo, Tobey, Junior, Léo, Teco, Tiago, Diego, minha adorada Fer, Fabrício, Peerre, Roger, Layo, Guiu, Guilhermes, Filipe, Guga, Janzinha, Ailton, Ana, Sérgio, Antonio, carlos, Pilon, Christopher, William, Wallace, Tata, Chiko, Ed, Rodrigos, Felipes, Walrus, André, Camila, Inagaki, Ícaro, Francis, Gabriel, Miura, Michel, Milton, Paulo, Marvin, Marlonn, Marfil, Marcos, Rudá, Buzz, Tatica, rafael, Vitor, Lemuel, André, Ernesto, Carol, quem eu esqueci de citar e quem nunca deixa comentário.

P.S. 2: comecei a postar no Oscar Buzz minha aposta finais para as indicações ao Oscar, que saem na terça. A lista eu completo ainda hoje, mais tarde.

26 de jan de 2006

Perspectivas Oscar

Perspectivas Oscar 2005 - diretor.

24 de jan de 2006

Munique

Minha casa, sua casa




Quando dirigiu Contatos Imediatos do Terceiro Grau, em 1977, Steven Spielberg definiu para o espectador o que esperar exatamente de um filme seu. São raros os cineastas que têm o dom da manipulação consentida, que conseguem atingir limites dramáticos tão perigosos quanto ele, que usualmente passa de raspão do sentimentalismo por causa da forma direta de se comunicar. Pelo menos, é isso o que eu acho de Spielberg. E eu acho também que ele errou algumas vezes. Mas, de uma maneira geral, Spielberg é um grande diretor.

As críticas a seu trabalho geralmente resvalaram no quanto ele abusa dessa capacidade de manipulação em seus filmes. De certa maneira, quem se dispõe a assistir a um trabalho de Spielberg está preparado ou para ser abduzido pelos encantos de suas histórias, ou para refutar a maneira como ele as conta. Sim, porque na mesma medida em que o diretor é grande, o diretor é previsível. E essa talvez seja sua maior falha.

Então, de tão previsível na construção de seus filmes (entendam: eu não acho isso necessariamente ruim), é bem entendível o porquê da recepção fria a Munique, novo filme sério do diretor, que vai de encontro a quase tudo o que Spielberg fez: o longa é de uma economia dramática impressionante. Razões existem. Acompanhar um grupo de homens cuja missão é assassinar pessoas - por mais que elas sejam terroristas - e fazer com que o espectador se apaixone por eles, tática comum na hora de cativar o público, soaria esquizofrênico num filme clássico de Spielberg. Por isso, a solução foi o distanciamento. Um tom quase documental.

A própria natureza da história a ser contada mendigava este formato, então há uma excelente composição das cenas, que funcionam tanto enquanto tradução dos fatos (não vou entrar no mérito de como os eventos se desenrolaram realmente) quanto na forma de narrativa dramática. Munique lembra muito os filmes sobre espionagem e terrorismo feitos nos anos 70. O tom nostálgico surge na fotografia de Janusz Kaminski, que faz mais um trabalho exemplar nos enquadramentos, movimentos de câmera e na iluminação propositadamente escassa. A sepialização tão excessiva no cinema feito hoje em dia é usada com parcimônia.

Mesmo abraçando o documental, o diretor não se esquiva de uma das coisas que melhor sabe fazer: humanizar suas personagens. Todos os integrantes do grupo ganham atenção em maior ou menor grau. O Avner de Eric Bana, na condição de protagonista, é quem recebe um desenho mais amplo, um homem de família, cuja integridade não é abalada por aceitar a missão em nome de sua pátria. Bana, tão econômico quanto a encomenda, está particularmente bem em cena. Sua performance profissional - e seus questionamentos sobre o ofício - contrastam com os pequenos momentos de explosão pessoal. O bálsamo de ouvir a sonoplastia da filha pelo telefone.

Há um aproveitamenro discreto, mas eficiente de personagens periféricos, como a família mafiosa francesa, a mãe e a esposa de Avner e a primeira-ministra Golda Meir, que mesmo sem um texto particularmente notável, ganha uma performance notável de Lynn Cohen. Acho injustas e mal colocadas as acusações de "defesa" da causa judaica porque a análise sobre os eventos não me parece assumir partidos. Não se trata de imparcialidade, mas de foco. Há, inclusive, uma bela cena entre um judeu e um árabe numa discussão sobre terra, lar, casa. Para Spielberg, o que importa não é a política. Nem exatamante a ética. O que conta é a porrada nos ouvidos de quem aperta o botão.

Munique
Munich, Estados Unidos, 2005.
Direção: Steven Spielberg.
Roteiro: Tony Kushner e Eric Roth, baseado no livro Vengeance: The True Story of an Israeli Counter-Terrorist Team, de George Jonas.
Elenco: Eric Bana, Daniel Craigm Ciarán Hinds, Mathieu Kassovitz, Hanns Zischler, Ayelet Zurer, Geoffrey Rush, Gila Almagor, Michael Lonsdale, Mathieu Amalric, Moritz Bleibtreu, Valeria Bruni Tedeschi, Meret Becker, Marie-Josée Croze, Yvan Attal, Lynn Cohen.
Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michael Kahn. Direção de Arte: Rick Carter. Figurinos: Joana Johnston. Música: John Williams. Produção: Kathleen Kennedy, Barry Mendel, Steven Spielberg e Colin Wilson. Site Oficial: Munique.Duração: 167 min.

nas picapes: Here's To You, Joan Baez e Ennio Morricone.

22 de jan de 2006

Impulsividade e A Lula e a Baleia

Em busca da melancolia perdida: o futuro dos indies




O filme de estréia de Mike Mills tem a melancolia e a inquietação que faltam na maioria dos indies norte-americanos de hoje em dia, como Hora de Voltar (2004), de Zach Braff. Atualmente é lei ter personagens perdidas no mundo, mas geralmente isso resulta em falta de direção e em falta do que dizer. O grande trunfo deste filme é saber muito bem para onde ir e usar isso em seu favor. O protagonista alguém que começa a se confrontar com um mundo mais palpável e tem que saber atravessar estas mudanças. Sua luta se materializa em largar o hábito de chupar o dedo.

Com um ponto de partida tão assumidamente bobo, Impulsividade vai além de todos seus primos. Passa raspando nos clichês do cinema-indie-para-festivais norte-americano, mas quase sempre sai com inteligência destas armadilhas. É aí que ele se torna sério, maduro. Há uma bela discussão sobre maturidade. O tempo e o espaço são sempre limítrofes. Tal qual sua personagem principal, o filme mora naquele hiato entre a adolescência e a idade adulta, o que permite que ele seja sério com frescor, que ele seja jovem com maturidade. Lou Taylor Pucci é ótimo, assim como seu irmão, melhor ainda, mas o destaque do elenco é mesmo Vincent D'Onofrio, no melhor papel pós-Nascido para Matar (1987), que está brilhante como um homem resignado, conformado com o que já se estabeleceu.



A Lula e a Baleia é uma das melhores crônicas familiares norte-americanas em muito tempo. Faz uma belíssima mistura de melancolia com referências pop (seja nas citações do roteiro, seja na trilha) sem aquele quê de "olha como eu sou inteligente" e consegue dar densidade aos dramas das personagens, em plenos anos 80, a década perdida. O elenco é uma pérola: desde os dois garotos a Laura Linney, sempre bem, e Jeff Daniels, talvez no melhor papel (e interpretação) da sua carreira.

Há uma cena muito boa. Enquanto o protagonista, abalisado por sua pequena crise pessoal, se permite sair do prumo e fazer algumas loucuras (com a cumplicidade dos pais), seu pequeno irmão, de uns 12 anos, tem que segurar a onda da casa e solta a melhor frase do filme: "você acha que é fácil ser o normal?".

Os "filmes sobre famílias" geralmente morrem na intenção, mas aqui o resultado é riquíssimo. O esfacelamento da família, que desmorona devagarzinho, com as personagens se sustentando suas relações umas com as outras por um fio, surge não como determinista ou definitivo, mas na forma de procura pelo ideal, pela plenitude. Noah Baumbach é o co-roteirista de um dos melhores filmes lançados no ano passado no Brasil: A Vida Marinha com Steve Zissou. Não é à toa que Wes Anderson produz este filme. Baumbach traz dos filmes de seu colega a mesma intimidade com a falta de perspectiva que Anderson traduz tão bem. Uma meta de muitos e uma realidade para pouquíssimos.

Impulsividade
Thumbsucker, Estados Unidos, 2005.
Direção e Roteiro: Mike Mills, baseado em livro de Walter Kirn.
Elenco: Lou Taylor Pucci, Tilda Swinton, Vincent D'Onofrio, Kelli Garner, Vince Vaughn, Benjamin Bratt, Chase Offerle, Sarah Iverson, Sarah Bing, Kit Koenig, Mason Bromberg.
Fotografia: Joaquín Baca-Asay. Montagem: Haines Hall e Angus Wall. Direção de Arte: Judy Becker. Figurinos: April Napier. Música: Tim DeLaughter. Produção: Anthony Bregman, Anne Carey, Jay Shapiro e Robert J. Stephenson. Site Oficial: Impulsividade.Duração: 96 min.

A Lula e a Baleia
The Squid and the Whale, Estados Unidos, 2005.
Direção e Roteiro: Noah Baumbach.
Elenco: Jesse Eisenberg, Jeff Daniels, Laura Linney, Owen Kline, William Baldwin, Halley Feiffer, David Benger, Anna Paquin, James Hamilton, Adam Rose, Henry Glovinsky, Eli Gelb, Peggy Gormley, Peter Newman, Greta Kline.
Fotografia: Robert D. Yeoman. Montagem: Tim Streeto. Direção de Arte: Anne Ross. Figurinos: Amy Westcott. Música: Tim DeLaughter. Produção: Wes Anderson, Charlie Corwin, Clara Markowicz e Peter Newman. Site Oficial: A Lula e a Baleia.Duração: 81 min.

rodapé: as perspectivas para o Oscar de melhor atriz.

nas picapes: She Can Tell You, Maggie Cheung.

Fênix



Fênix Negra.

Estou começando a colocar fé em X-Men 3.

21 de jan de 2006

DVDs



Clean, de Olivier Assayas.

Acabei de rever Clean. Definitivamente meu filme do ano. Um texto tão simples, uma maneira tão simples de se contar uma história. Olivier Assayas é muito plácido ao acompanhar os desacertos de sua personagem, sem nunca deixar de demonstrar paixão irrestrita por ela. Diretores apaixonados por suas personagens sempre me conquistam. Assayas trata tudo de maneira tão simples, conduz cada detalhe de forma tão cotidiana, que é estranho que não tenha absorvido nenhum lugar comum. Mesmo nos diálogos entre mãe e filho, que hoje me pareceram um pouco além da idade do garoto, Assayas busca a naturalidade. Maggie Cheung perfeita, Nick Nolte magnífico e uma aparição pequena e irretocável da Jeanne Balibar. Na área técnica, eu gosto de tudo: fotografia, montagem com fades que interrompem as cenas nos momentos certos. Assayas não permite a verborragia. Ele é econômico. As duas canções que Maggie Cheung canta no filme são lindas: "She Can Tell You" (ouvida por Beatrice Dalle na fita e que sobe com os créditos) e "Down in the Light", na cena do estúdio.



Amor em Jogo, de Peter e Bob Farrelly.

Fui ver muito empolgado com os elogios e com a meia hora que me fez descobrir o quão bonmito é O Amor é Cego, mas não me envolveu muito. Acho que começa bem melhor do que termina, embora seja um filme bonito, sensível e bem maduro. A primeira meia hora é arrebatadora, desenhada com uma invejável tranquilidade, apresentando e dando consistência às personagens. O protagonista é meio apático. Fiquei imaginando durante o filme inteiro o que um Jim Carrey faria com aquela personagem. Mas o que mais me impressionou foi como os Farrelly estilizaram seu cinema, no sentido de evolução mesmo. O filme não é de riso fácil, mas de riso solto.

P.S.: perspectivas para o Oscar de melhor atriz no Oscar Buzz.

18 de jan de 2006

Mistérios da Carne

Memórias secretas




Há bem mais poesia em mais uma tentativa de mergulho de Gregg Araki no quê marginal das pessoas comuns do que em qualquer outro filme seu. A melancolia que o diretor empresta a suas personagens diferentes é legítima e impressionantemente pessoal, já que o filme é sua primeira experiência com uma história que não é sua. O diretor consegue um equilíbrio perfeito entre as narrativas que caminham paralelas durante o todo o longa e somente se encontram no final. Os dois meninos estão muito bem nos papéis, difíceis. Um filme sobre abuso infantil provavelmente nunca foi tão onírico.

O mistério proposto pela trama é o que de menos importa. É o caminho para chegar na sua solução que revela os processos íntimos dos dois protagonistas. E Araki é extremamente generoso com suas personagens, mesmo quando elas estão em apuros. Ambos têm espaço suficiente para desenvolver suas "buscas" (ô palavrinha chata e mal empregada, sempre clichê). No fim, Mistérios da Carne é justamente um filme sobre encontrar seu espaço, entender sua história. Ou seja, um dos temas mais batidos do universo. Mas Araki só entrega o jogo no final e é lá que a gente tem certeza de que este filme é um belo filme.

Mistérios da Carne
Mysterious Skin, Estados Unidos / Holanda, 2004.
Direção, Montagem e Roteiro: Gregg Araki, baseado em livro de Scott Heim.
Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Brady Corbet, Elisabeth Shue, Michelle Trachtenberg, Bill Sage, Jeffrey Licon, Lisa Long, Chris Mulkey, Richard Riehle, David Lee Smith, Ryan Stenzel, Mary Linn Rajskub, Billy Drago, Chase Ellison, George Webster, Rachael Nastassja Kraft, Riley McGuire.
Fotografia: Steve Gainer. Direção de Arte: Devorah Herbert. Figurinos: Alix Hester. Música: Harold Budd e Robin Guthrie. Produção: Gregg Araki, Jeffrey Levy-Hinte e Mary Jane Skalski. Site Oficial: Mistérios da Carne.Duração: 99 min.

nas picapes: Let The Sun Shine In, Frente!.

2046

Cores conscientes




Uma das principais características do cinema de Wong Kar-Wai é sua capacidade de contar uma história com um grande suporte visual. O último episódio de Eros, filme dividido em três, tem a assinatura do cineasta. É justamente ele quem salva o longa de um fracasso completo já que as duas primeiras partes seguem caminhos bem estranhos. A delicadeza, de apuro imagético e de cuidado com a temática, de A Mão é irmã do que ele faz nos últimos trabalhos. Cada imagem está lá por um motivo.

Há muitos momentos de obra-prima neste engenhosíssimo novo filme, que retoma a personagem de Tony Leung em Amor à Flor da Pele (2000), o escritor que se hospeda em frente ao quarto 2046. À medida em que somos apresentados, uma a uma, a cada uma das mulheres que vão passar pela vida do protagonista, a trama se desdobra e conhecemos também a história de ficção-científica paralela que ele escreve. Para apresentá-la, Kar-Wai se esforça para criar um belíssimo conjunto de camadas de tempo e espaço em que a ação se mistura e literatura e história se confundem.

A grande sacada é como o diretor utiliza essa estrutura em favor da própria narrativa. Nada soa gratuito. O resultado poderia ficar a um passo do equívoco, da predileção integral pela literatura, mas isso não acontece porque o cineasta é um amante da forma e consegue fazer não apenas uma fotografia belísissima em cores, filtros e enquadramentos, mas torná-la essencial para a concepção geral do filme. É ela que traduz a beleza das mulheres, a inquietação do protagonista, que dita o ambiente quase onírico imposto à ação, mas que também sabe se tornar realista quando o filme assim necessita. Fotografia que consegue ser mais bonita do que a do filme anterior. Que, por mais calculada que seja, consegue captar uma certa inocência das personagens.

2046 - Os Segredos do Amor
2046, China / Hong Kong / França / Alemanha, 2004.
Direção, Produção e Roteiro: Wong Kar-Wai.
Elenco: Tony Leung Chiu Wai, Gong Li, Takuya Kimura, Faye Wong, Zhang Ziyi, Carina Lau, Sum Wang, Siu Ping Lam, Maggie Cheung, Chen Chang.
Fotografia: Christopher Doyle, Lai Yiu-Fai e Kwan Pung-Leung. Montagem, Direção de Arte e Figurinos: William Chang. Música: Peer Raben e Shigeru Umebayashi. Site Oficial: 2046.Duração: 127 min.

nas picapes: Tears to Shed, Danny Elfman.

15 de jan de 2006

Apostas

O ranking de dezembro está online no blogue da liga.

Minhas apostas para o Globo de Oro, que será entregue nesta segunda-feira, estãoi no Oscar Buzz.

O Peerre acab de postar a lista final com os melhores filmes do ano segundo os top tens de uma porrada de leitores.

E não deixe de votar na enquete sobre os 5 melhores filmes de 2005, no pop-up deste blogue.

A primeira fase da votação para o Alfred, o prêmio dos melhores do ano pela Liga dos Blogues Cinematográficos, começa no próximo sábado.

14 de jan de 2006

Heróis Imaginários

A vida real?




Dan Harris é mais habilidoso em contar histórias de heróis de verdade. Não que Heróis Imaginários, sua estréia na direção, seja um filme ruim. Ele é apenas um filme que não acontece. Muito aquém do trabalho que Harris fez no segundo longa dos X-Men para o cinema, quase uma obra-prima, onde assinou o roteiro. Com personagens mais reais, o diretor ficou menos à vontade para inventar e, quando tenta isso, geralmente caminha para soluções estranhas, calcadas na imobilidade de suas personagens.

Heróis Imaginários tem um belo ponto de partida: como uma família sobrevive à morte de um ente querido, o ídolo da casa? Mas não sabe muito bem o que fazer com suas personagens. Jeff Daniels é largado pela trama até a meia hora final. Sigourney Weaver protagoniza algumas cenas constrangedoras, com momentos nonsense (não estou certo se intencionalmente ou não), e, por fim, o bom Emile Hirsch demora para encontrar uma linha de interpretação. Na ânsia de encontrar novos "momentos família" e fugir das fórmulas, Harris parte para situações menos óbvias e menos realistas ou relevantes.

A única cena que escapa ilesa é o abraço entre pai e filho. Mas isso não é tudo. Falta a Heróis Imaginários a tristeza sincera e o incômodo legítimo. Um filme que recorre a desvios de roteiro estranhos e que não combinam com nada. É curioso que a melancolia perdida deste filme foi encontrada num outro filme estrelado por Jeff Daniels, A Lula e a Baleia, belíssimo longa independente que encontra uma forma original e bonita de falar de um núcleo familiar desfeita.

Heróis Imaginários
Imaginary Heroes, EUA / Alemanha / Bélgica, 2004.
Direção e Roteiro: Dan Harris.
Elenco: Sigourney Weaver, Emile Hirsch, Jeff Daniels, Michelle Williams, Kip Pardue, Deirdre O'Connell, Suzanne Santo, Jay Paulson, Luke Robertson, Lee Wilkof, Terry Beaver, Sara Tanaka, Adam LeFevre, Bruce Norris.
Fotografia: Tim Orr. Montagem: James Lyons. Direção de Arte: Rick Butler. Música: Deborah Lurie. Figurinos: Michael Wilkinson. Produção: Illana Dramant, Moshe Diamant, Frank Hübner, Art Linson, Gina Resnick e Denise Shaw. Site Oficial: Heróis Imaginários.Duração: 112 min.

nas picapes: Reel Around the Fountain, The Smiths.

Shelley Winters



Shelley Winters morreu hoje. Uma atriz maravilhosa.

Um Lugar ao Sol (George Stevens, 1951) + O Mensageiro do Diabo (Charles Laughton, 1955) + O Diário de Anne Frank (Robert Wise, 1959) + Lolita (Stanley Kubrick, 1962) + Como Conquistar as Mulheres (Lewis Gilbert, 1966) + O Destino do Poseidon (Ronald Neame, 1972) + O Inquilino (Roman Polanski, 1976)

13 de jan de 2006

Enquete melhores

Quais os cinco melhores filmes de 2005? Participe da enquete que está no ar num pop-up neste blogue.

12 de jan de 2006

O Mundo de Jack e Rose

Melancolia vazia




O Mundo de Jack Rose é, numa avaliação bem rasteira, um filme sobre incesto. Ou melhor, sobre a insinuação da possibilidade de incesto. Isso mesmo: é um filme sobre o talvez. O amor entre pai e filha ganha rascunho até interessante, mas o longa de Rebecca Miller nunca o define muito bem, nunca procura entendê-lo. O caso não seria, em absoluto, defender ou não este amor, acreditar ou não nele, mas dar alguma substância para a história dos protagonistas. A diretora, que também escreveu o filme, disfarça a discussão principal com uma série subtramas dispensáveis.

Curiosamente é delas que surge a melhor personagem, o enteado cabeleireiro, que ganhou um intérprete interessado em defendê-lo (infelizmente, o espaço é pouco). Esse interesse pouco existe na estreante Camilla Belle ou mesmo no grande ator que é Daniel Day-Lewis, provavelmente pelo fato de que o texto não permite isso. Estranho esse acanhamento de Rebecca, que vinha de um belo filme anterior, O Tempo de Cada Um (2001), extremamente bem resolvido na defesa de suas três protagonistas. Aqui ninguém tem muita certeza do que é, do que acreditar e isso cria um certo incômodo visível, sobretudo no final, ruim, que a diretora entrega a suas personagens. Então, para que tanta melancolia? Para dar aquele gostinho de filme independente que tem que ser triste e ter personagens perdidas no mundo? Bob Dylan poderia estar mais à vontade em outro lugar.

O Mundo de Jack e Rose

The Ballad of Jack and Rose, Estados Unidos, 2005.
Direção e Roteiro: Rebecca Miller.
Elenco: Daniel Day-Lewis, Camilla Belle, Catherine Keener, Ryan McDonald, Paul Dano, Jason Lee, Jena Malone, Beau Bridges, Susanna Thompson, Anna Mae Clinton.
Fotografia: Ellen Kuras. Montagem: Sabine Hoffman. Direção de Arte: Mark Ricker. Música: Michael Rohatyn. Figurinos: Jennifer von Mayrhauser. Produção: Lemore Syvan. Site Oficial: O Mundo de Jack e Rose.Duração: 112 min.


nas picapes: Bird Dream of the Olympus Mons, Pixies.

11 de jan de 2006

Ranking de 2005

Todo ano é a mesma coisa: um monte de gente dizendo que o cinema morreu, que a criatividade acabou, que nada é mais como antigamente. Nunca concordei muito com esse derrotismo, mas 2005 veio para provar que eu estava errado. Além de não estar morto, o cinema está muito vivo, imensamente vivo. Há pelo menos quatro obras-primas lançadas no circuito comercial neste ano, além de vários filmes acima da média. A lista a seguir, diferentemente das listas de melhores do meu prêmio pessoal, considera apenas os filmes lançadas comercialmente no país no ano passado.



melhores filmes do ano:

1 Clean, de Olivier Assayas
2 Reis e Rainha, de Arnaud Desplechin
3 Marcas da Violência, de David Cronenberg
4 Um Filme Falado, de Manoel de Oliveira
5 Terra dos Mortos, de George Romero
6 A Vida Marinha com Steve Zissou, de Wes Anderson
7 A Menina Santa, de Lucrecia Martel
8 Guerra dos Mundos, de Steven Spielberg
9 O Aviador, de Martin Scorsese
10 Bom Dia, Noite, de Marco Bellocchio
11 Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes
12 Ninguém Pode Saber, de Hirokazu Kore-eda
13 King Kong, de Peter Jackson
14 Oldboy, de Chanwook Park
15 O Castelo Animado, de Hayao Miyazaki
16 Mar Adentro, de Alejandro Amenábar
17 Cidade Baixa, de Sérgio Machado
18 Sin City, de Frank Miller e Robert Rodriguez
19 Flores Partidas, de Jim Jarmusch
20 Menina de Ouro, de Clint Eastwood

melhores filmes brasileiros:

As notícias para o cinema brasileiro também foram muito boas. O ano começou com um belo filme sobre a ditadura, seguiu com um belo filme sobre uma família no deserto e terminou com dois belos, um deles belíssimo, filmes nordestinos que não se escoram no estereótipo e nos clichês para mostrar a região.



1 Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes
2 Cidade Baixa, de Sérgio Machado
3 Cabra-Cega, de Toni Venturi
4 Casa de Areia, de Andrucha Waddington
5 Bens Confiscados, de Carlos Reichenbach

piores filmes do ano

De um lado, muitos filmes bons; do outro, filmes desprezíveis. Há aqueles que apostam no choque para chamar a atenção e se revelam tão denunciáveis quanto seus denunciados. Há outros que se fazem se radicais ou de fofinhos para agradar aos radicais e aos fofinhos. E ainda há aquela parcela dos filmes de terror que abominam o mistério e o suspense e se erguem apenas pela violência que mostram na tela (como se nisso houvesse mérito).



1 Quanto Vale ou é por Quilo?, de Sérgio Bianchi
2 Crash - No Limite, de Paul Haggis
3 Closer - Perto Demais, de Mike Nichols
4 Em Busca da Terra do Nunca, de Marc Foster
5 Contra a Parede, de Fatih Akin
6 O Operário, de Brad Anderson
7 Jogos Mortais, de James Wan
8 Provocação, de Tod Williams
9 O Massacre da Serra Elétrica, de Marcus Nispel
10 Herói, de Zhang Yimou


 
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