[f i l m e s d o c h i c o]

29 de nov de 2005

Oscar Buzz

Minhas apostas, as notícias, os prêmios dos sindicatos e dos críticos: tudo relacionado ao Oscar num endereço novo.

Harry Potter e o Cálice de Fogo

Três bruxos e um destino



O que não muda nos livros ou filmes de Harry Potter talvez seja o que mais cative na obra de J. K. Rowling. Além da magia, dos seres mitológicos, de todo o universo fantástico que circula a escola de Hogwarts, existe a história de um garoto crescendo. Pode ser, e é, muito clichê se debruçar sobre isso (tanto que praticamente tudo o que se escreve sobre este ou sobre o último filmes passa pela supresa em encontrar personagens mais maduras e uma história menos infantil. Surpresa?), mas é exatamente este o trunfo de Harry Potter. Seus dramas e os de seus amigos são de verdade. Identificação.

Primeiro, temos Harry. Ora, Harry é o Superman - ou alguém não percebeu? Ele é o cara íntegro, deslocado da família, cheio de poderes, mas mesmo inocente, completamente responsável no uso deles. Um mauricinho para muita gente já que ele é tão certinho que não comete faltas muito graves. Mas Harry tem, mal comparando, o mesmo peso que o Superman tem. Ele precisa ser certo porque, quer ele queira ou não, ele é o exemplo, uma espécie de líder natural. E ao mesmo tempo, Harry é uma criança. Ou melhor: um adolescente... crescendo, descobrindo o mundo. Claro que o mundo de Harry é bem mais legal do que o dos adolescentes da idade dele. Ele voa e há dragões. E há a magia. E Harry, como o Superman que é, precisa liderar, estar à frente, ser herói. E ainda ser criança, ser adolescente, descobrir como se convida a garota que ele achou bonita para ir ao baile. A vida de Harry não é fácil.

Tem também o Ronnie. Ronnie não é um herói ao contrário do Harry. Ronnie é o melhor amigo. É aquele que sempre estará lá, mesmo que não queira. Melhores amigos, ninguém escolhe. Eles aparecem e assumem seu posto. Ronnie é o Jimmy Olsen do Superman Harry Potter. Ele guarda os segredos de seu amigo-herói, garante a retaguarda, é a segurança, mesmo sendo um adolescente quase assustado, inseguro, careteiro. Segurança nem sempre se define com alguém que bate quando o inimigo se aproxima. Ronnie é porto. Acolhedor. O Harry precisa dele porque Ronnie é praticamente a família dele. E Ronnie, além dessa cansativa função de melhor amigo, é também um adolescente. Ele também precisa ter coragem para chamar uma garota para o baile. Talvez tenha medo de chamar a garota certa. Talvez ainda não saiba muito bem. Ora, é difícil - e muito - ser adolescente.

E tem Hermione. Inteligente, completamente hábil em suas especialidades, espertíssima, quase uma estrategista. Numa história com Supermans e Jimmy Olsens, Hermione não tinha muito o que fazer a não ser ser uma Lois Lane. Forte, decidida, impulsiva, provavelmente sagitariana, briguenta, resmungona, ela nunca se dá por vencida. E se Ronnie é o abraço de Harry, Hermione é seu escudo. É aquela que sempre estará lá para ajudar a resolver a questão. Um fardo grande para uma garotinha. Aliás, para uma jovem. Hermione, além de segunda melhor amiga, também está crescendo, também quer que o menino certo (embora ela mesma não esteja tão certa assim) a convide para o baile. Ela quer estar linda porque as adolescentes sempre querem muito estar lindas (quando não se vestem de preto e ouvem Black Sabbath - tá, estas também querem). Hermione está crescendo também. Ela pode enfeitiçar ogros e retirar encantos, mas imagine como deve ser complicado demonstrar interesse por um garoto da sua idade!



O Prisioneiro de Azkaban, o filme, era sobre Harry, Ronnie e Hermione. Três amigos aprendendo a lidar com o mundo, começando a entender o que é deixar de ser criança. O filme de Alfonso Cuarón mudava completamente o foco da trama, que deixava de ser a história de três garotos numa escola de magia e passava a ser a história de três garotos. Quase não havia cenas sem um dos três protagonistas. Na verdade, quase não havia cenas com qualquer fala importante que não viesse de um dos três. Como não havia um torneiozinho para garantir a glória eterna ou um daqueles esquemáticos "trabalhos de Hércules" que resolviam a trama nos primeiros livros/filmes, o foco pode ser voltado para as personagens. Cuarón pôde desenvolvê-las, explicá-las melhor aos espectadores.

Em O Cálice de Fogo, Mike Newell devolve o caráter mais amplo à série, inclusive porque a história pedia isso. É obviamente delicioso - mais uma vez - acompanhar Harry nos mirabolantes desafios mágicos do torneio que virou a espinha dorsal do longa. Há inclusive uma cena maravilhosa, debaixo d'água, quando descobrimos quais os tesouros que Harry tem que recuperar numa das provas. Mas com tanta historinha para contar e um vilão para fazer ressurgir - por sinal, Ralph Fiennes, assustador, ótima escolha - os protagonistas não ganharam um tratamento mais dedicado, o que era o maior trunfo do filme anterior. Sim, há todo o dilema do baile, que nos coloca a par dos pontos fracos de nossos heróis e que é um capítulo à parte no seu crescimento, mas parece pouco perto do que foi apresentado antes.

Eu, provavelmente, nunca vou deixar de gostar de um filme ou de um livro de Harry Potter. Não que eu seja um grande fã, que eu tenha aquele vício de comprar e ler tudo relacionado à personagem. Não. Provavelmente eu nunca vou deixar de gostar de um filme ou de um livro de Harry Potter porque ele conversa comigo. Talvez minha infância seja mal resolvida - geralmente acham isso de quem coleciona bonecos de super-heróis - mas eu, nunca avaliação bem pessoal e, por isso mesmo, parcial acredito que o material é muito bom, as personagens são muito reais, as situações são de verdade. E acompanhar as histórias de três pessoas crescendo, virando adultas, descobrindo como devem reagir ao que a vida traz, é uma coisa verdadeiramente muito prazerosa para mim. Ver Neville Longbottom perder o medo e aparecer acompanhado no baile foi muito importante para mim. Eu fiquei orgulhoso.

Harry Potter e o Cálice de Fogo
Harry Potter and the Globbet of Fire, Estados Unidos, 2005.
Direção: Mike Newell.
Roteiro: Steven Kloves, baseado em livro de J.K. Rowling.
Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Mark Williams,
James Phelps, Oliver Phelps, Bonnie Wright, Jeff Rawle, Robert Pattinson, Jason Isaacs, Tom Felton, Stanislav Ianevski, Robert Hardy, Roger Lloyd-Pack, David Tennant, Katie Leung, Matthew Lewis, Robbie Coltrane, William Melling, Michael Gambon, David Bradley, Devon Murray, Afshan Azad, Warwick Davis, Frances de la Tour, Shefali Chowdhury, Angelica Mandy, Clémence Poésy, Maggie Smith, Alan Rickman, Predrag Bjelac, Brendan Gleeson, Alfred Enoch, Louis Doyle, Jamie Waylett, Joshua Herdman, Charlotte Skeoch, Miranda Richardson, Gary Oldman, Tiana Benjamin, Eric Sykes, Ralph Fiennes, Adrian Rawlins, Geraldine Sommerville.
Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Mick Audsley. Direção de Arte: Stuart Craig. Música: Patrick Doyle. Figurinos: Jany Temime. Produção: David Heyman. Site Oficial: Harry Potter e o Cálice de Fogo.Duração: 157 min.

nas picapes: I've Seen All Good People, Yes.

22 de nov de 2005

Flores Partidas

Pé na estrada e alguma melancolia



O status quo, quebrado por uma carta. A vida ganha nova dimensão, novo prisma, novas possibilidades. Pé na estrada numa busca cujo objetivo pode ser justamente a busca em si, o movimento, a consciência da imobilidade de até então. A solidão de Don Johnston sempre esteve lá. Faltava só alguém dizer. E alguém disse. É então que ele percebe que tem a chance de continuar, de perpetuar, algo assim meio orgânico (inclusive mais orgânico que romântico). A busca pelo futuro se dá no passado ou que no ficou dele. Jarmusch não tinha outra maneira se não abraçar a melancolia, com a habilidade de não transformá-la em prisão.

Curiosamente, Flores Partidas tem um ponto de partida muito próximo ao do novo filme de outro diretor, Wim Wenders, o belo (e injustamente massacrado por alguns) Estrela Solitária. A busca por um filho desconhecido toma, em cada filme, rumos diferentes, mas cheios de semelhanças. Nos dois filmes, importa menos o encontro com o filho e mais o terremoto que isso provoca no protagonista, o quanto ele passa a questionar sua relevância. Nesse aspecto, Jarmusch é mais feliz do que Wenders porque, se Sam Shepard tenta transitar entre o sóbrio e o clown, Bill Murray não apenas faz isso, mas mora nesse intervalo.

A redescoberta de Murray no fim dos anos 90 foi uma das mais belas do cinema recente. É um ator circular, raramente sai da forma que vemos em seus últimos filmes, mas sempre consegue delicadeza. Aqui, repete trejeitos e fórmulas, amplificando sua releitura de Chaplin, mas concede tanta graciosidade a sua personagem que é impossível não se apaixonar por Don Johnston. As piadinhas que enfeitam toda a narrativa só são possíveis porque é ele que está em cena. E só existem em função dele. Murray é a tradução perfeita do que pretende Jarmusch. É o palhaço que se revela melancólico. Aquele que implode para não perder o sorriso. E que, quando tenta explodir, numa das cenas mais lindas e tristes do ano, dá de cara com o fato de que o mundo nem sempre permite ser amado.

Flores Partidas
Broken Flowers, Estados Unidos/França, 2005.
Direção e Roteiro: Jim Jarmusch.
Elenco: Bill Murray, Sharon Stone, Frances Conroy, Jessica Lange, Tilda Swinton, Julie Delpy, Jeffrey Wright, Mark Webber, Chris Bauer, Alexis Dziena, Larry Fessenden, Suzanne Hevner, Pell James, Christopher McDonald, Chloë Sevigny, Heather Simms.
Fotografia: Frederick Elmes. Montagem: Jay Rabinowitz. Direção de Arte: Mark Friedberg. Música: Mulatu Astatke. Figurinos: John A. Dunn. Produção: Jon Kilik, Jim Jarmusch, Jean Labadie e Stacey E. Smith. Site Oficial: Flores Partidas.Duração: 105 min.

rodapé: a única coisa boa do meu fim-de-semana de plantão foi dar umas espiadas em Simplesmente Amor, de Richard Curtis, exibido no Telecine. O filme é maravilhoso mesmo, sem vergonha de seus clichês (e ele dobra muitos deles), com um elenco que acredita muito no que está fazendo e algumas cenas lindas de tão bobas, de tão possíveis.

nas picapes: God Only Knows, Beach Boys.

Liga dos Blogues

Novos membros para a Liga dos Blogues Cinematográficos. Candidatos, aqui.

19 de nov de 2005

Cinema, Aspirina e Urubus

A história de um encontro



Quando o Nordeste chega ao cinema brasileiro, você já sabe bem o que vai encontrar: cangaceiros, miséria, fome e alguns elementos e personagens clássicos do folclore e da cultura da região, que deixam tudo mais palatável. Nordeste é sinônimo de sertão, de denúncia, de engajamento social. É bem triste ver como a pobreza da região se transforma numa absoluta pobreza temática. O sertão e suas mazelas são um buraco negro do qual ninguém é capaz de evitar. Nos últimos tempos, alguns cineastas nordestinos, que poucas vezes têm boas chances de fazer um longa-metragem e de ganhar uma boa distribuição no país, tentam mudar essa história.

Cláudio Assis, com toda sua arrogância primária, já tinha mudado o foco da denúncia ao se enveredar pela miséria da metrópole em Amarelo Manga (2003). Neste ano, Sérgio Machado deixou o denuncismo de lado para apostar num cinema urbano, factual, bem longe dos estereótipos caros ao homem nordestino no belo Cidade Baixa. No ainda inédito Árido Movie, Lírio Ferreira inverte o caminho do nordestino: sai da cidade grande para o sertão de hoje: sexy, marginal e maconheiro. Todos, de uma forma ou outra, negam uma espécie de tradição rústica do cinema nordestino. É - e não é - o caso do mais bem-sucedido deles.

A primeira vez que eu ouvi o título Cinema, Aspirina e Urubus, confesso que fiquei bastante desconfiado, mas bastam os primeiros dez minutos para saber que o longa de estréia do pernambucano Marcelo Gomes é um dos melhores filmes brasileiros dos últimos tempos. Primeiro, ao contrário de seus colegas, Marcelo não nega o sertão humilde, atrasado, exótico aos olhos de fora. A diferença é que o sertão não é personagem aqui. É cenário. Marcelo Gomes explora as particularidades com graça invejável, sem nunca espetacularizá-las, usando-as apenas como suporte para contar sua história. E fazia tempo que o cinema - brasileiro - não contava tão bem e de maneira tão simples uma história.

O encontro entre o alemão que fugiu da guerra para vender aspirinas no meio do Brasil com o nordestino que sonha em escapar da seca é um filme de personagens, que se baseia quase que exclusivamente no seu texto. Um filme de amigos, de parceiros, que tem o mérito - extraordinário no cinema brasileiro - de nunca querer chamar atenção para si mesmo. É a delicadeza do roteiro e as belas performances dos dois protagonistas que transformar Cinema, Aspirina e Urubus na pérola que ele é. O destaque é, obviamente, João Miguel, que dribla com majestade as armadilhas de uma personagem muito fácil de se gostar, o nordestino simpático e engraçadinho. Mas sua atuação só ganha a dimenssão que tem pela química acertada com Peter Ketnath.

Mas a direção delicada, o texto sutil e vigoroso e as interpretações cativantes ganham reforço de uma bela embalagem técnica, desde a fotografia assumidamente estourada à cuidadosa direção de arte, passando pela bela trilha. Tudo discreto e eficiente; moldura para um punhado de cenas bonitas: a guerra entre os protagonistas, a carona para a jovem expulsa de casa, o monólogo do nordestino solitário. Seqüências tão genuínas, tão despojadas que pedem por identificação. O maior mérito de Cinema, Aspirina e Urbubus talvez seja o quanto ele parece de verdade. Um filme bom todo.

Cinema, Aspirina e Urubus
Cinema, Aspirina e Urubus, Brasil, 2005.
Direção: Marcelo Gomes.
Roteiro: Marcelo Gomes, Paulo Caldas e Karim Aïnouz, inspirados em relato de viagem de Ranulpho Gomes.
Elenco: João Miguel, Peter Ketnath, Hermila Guedes, Oswaldo Mil, Irandhir, Fabiana Pirro, Verônica Cavalcanti, Daniela Câmera, Paula Francinete, Sandro Guerra, Madalena Accioly, Arílson Lopes, José Leite, Zezita Matos, Francisco Figueiredo, Mano Fialho, Lúcia do Acordeão, Jorge Clésio, Nanego Lira.
Fotografia: Mauro Pinheiro. Montagem: Karen Harley. Direção de Arte: Dedete Parente Costa. Música: Tomás Alves de Souza.
Figurinos: Beto Normal. Produção: Sara Silveira, Maria Ionescu e João Vieira Jr.. Site Oficial: Cinema, Aspirina e Urubus.Duração: 90 min.

nas picapes: Horizonte Distante, Los Hermanos.

18 de nov de 2005

Uma Vida Iluminada

Em busca da origem triste e colorida



Acredito que muita gente deva se interessar pela proposta leve do filme de estréia de Liev Schreiber, baseado num livro que vendeu pra caramba, mas eu realmente não consegui ter qualquer grau de envolvimento. Primeiro, me parece muito esquemático todo o trabalho visual do longa, dono da fotografia com as cores mais vivas dos últimos tempos, e a direção de arte que é fundamental para ressaltar a esquisitice do protagonista e dos que cruzam seu caminho. Protagonista que até é bem defendido por Elijah Wood, mas que é tão interessante quanto a mania do seu tio de colecionar selos africanos ou soldadinhos de plástico... Errr... bem, quem sou eu para questionar as pequenas (ou grandes) obsessões do outros?

Schreiber - e antes dele, Jonathan Safran Foer - tenta justificar a excentricidade de sua personagem, o próprio Froer, por sua origem. Jonathan, o protagonista, volta para a velha e boa Ucrânia para tentar descobrir uma mulher no passado de seu avô, e lá entra em contato com um povo e um país tão excêntricos quanto ele mesmo. Ou seja, descobre suas raízes, mergulha na sua verdadeira essência. Que lindo, né? Não, isso não é bom. As particularidades sempre surgem travestidas de exóticas e servem para conquistar o carinho do público pelo diferente, pelo primário, por aquele sentimento de "olha que fofinhos que são os primitivos". Um olhar que muitas vezes é aplicado ao Brasil.

Por sinal, Uma Vida Iluminada só não pode ser chamado de carnavalesco porque a idéia é sensibilizar, da trilha sonora tristonha (e étnica) à composição de muitas cenas. É um filme feito para que as mocinhas encham os olhos de lágrimas, para que os velhinhos lembrem de seus entes queridos, para que todos aqueles que se sentem diferentes, excluídos, minorias se sintam identificados. Na verdade, eu não acho que Liev Schreiber, que é um bom ator, tenha premeditado esse filme como o plano malvado que ele se tornou. Eu acho que ele caiu no conto do vigário. Ele também chorou ao ler o livro, lembrou de seus entes queridos e se sentiu identificado. Ele não fez por mal. Uma Vida Iluminada não é ruim e nem é perverso, é apenas esquecível.

Uma Vida Iluminada
Everything is Illuminated, Estados Unidos, 2005.
Direção: Liev Schreiber.
Roteiro: Liev Schreiber, baseado em livro de Jonathan Safran Foer.
Elenco: Elijah Wood, Eugene Hutz, Boris Leskin.
Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Andrew Marcus e Craig McKay. Direção de Arte: Mark Geraghty. Música: Paul Cantelon. Figurinos: Michael Clancy. Produção: Peter Saraf e Marc Turteltaub. Site Oficial: Uma Vida Iluminada.Duração: 90 min.

nas picapes: Let's Get Lost, Elliott Smith.

17 de nov de 2005

Curtas

Curtas

Dona Flor e Seus Dois Maridos resiste bem ao tempo. É um bom filme. Bruno Barreto possivelmente nunca conseguiu um resultado tão interessante, embora nunca excepcional exceto, talvez, na cor . Interessante como vê-lo agora, que o cenário das ruas do Pelourinho me é familiar, faz dele um filme mais caseiro, mais gostoso. O Intercine Brasil, das segundas-feiras, é uma realmente uma bela pedida.

Locaram Madagascar aqui em casa e eu revi a primeira parte, antes do grupo sair de Nova York. O filme, num balanço geral, é fraco e perde absurdamente o timing depois disso, mas há momentos hilários e belamente construídos. A seqüência na estação de trens é muito, muito boa e as discussões me parecem bem interessante (origem, natureza, etc.).

Como sempre, eu peco pela impulsividade. Minha lista de melhores filmes da Mostra de Cinema de São Paulo trazia O Mundo, de Jia Zhang-ke, no topo, mas havia dois filmes melhores do que ele na seleção deste ano. Marcas da Violência cresce a cada momento na minha memória e tem meu voto certo para o Alfred entre os melhores filmes do ano. E Reis e Rainha é a obra-prima completa.

Acabei de descobrir que há duas músicas inéditas de Elliott Smith em Impulsividade, de Mike Mills, que estréia nas próximas semanas. Vi o filme na Mostra e gostei muito, mas tenho certeza de que muita gente vai cair de pau. Ele tem o clima meio "perdido na chuva" de Hora de Voltar, mas com o timing e a melodia certas. E boa parte disso se deve à música, bela, triste, melancólica.

Favela Rising, que conta a história do Afroreggae, é pré-candidato ao Oscar de documentário. Taí o tipo de filme que não me interessa. Passou no Rio e em São Paulo, nos festivais, mas não me despertou o mínimo interesse. Essa história de filme que dá exemplo me enche o saco, embora eu não queira aqui questionar nada das atividades do grupo ou da existência do filme. Só não me interessa.

2 Filhos de Francisco aparece em várias listas de sites de apostas entre os prováveis indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Bombadíssimo. Pior que tem cara de Oscar mesmo. Eu acho o filme apenas bem feitinho. Neste ano, o cinema brasileiro fez pelo menos quatro filmes muito melhores: Cabra-Cega, Casa de Areia, Cidade Baixa e Cinema, Aspirina e Urubus. Todos com "c", vejam só.

Salvador vai receber, mais uma vez, o Festival Varilux de Cinema Francês. Vai ser a partir do dia 25, no Clube Bahiano de Tênis. Entre os filmes, o novo do Chabrol, A Dama de Honra, o clássico de Jacques Demy, Pele de Asno, e Agentes Secretos, de... bem, o diretor pouco importa quando a estrela é Monica Bellucci.

Não sei não, mas King Kong me parece genial...

14 de nov de 2005

Manderlay

Reprise do último capítulo



Há algo de extremamente presunçoso em se dispor a fazer um filme sobre as origens de um país que não é o seu... ou não? Pois bem, Lars Von Trier já está no segundo e todo mundo bem sabe que este não será o último. Ora, a questão não é falar mal desse ou aquele país, desse ou daquele povo, isso existe desde que o mundo é mundo. O que eu questiono é o quão abalisado está o diretor para ir além do questionamento, ir revelar as raízes do problema. E o problema aqui é a visão estilizada dos Estados Unidos e dos norte-americanos como o mal maior, o câncer do mundo. Convenhamos que os Estados Unidos, por todo seu papel histórico e econômico, é um alvo fácil demais. Mas Von Trier, além de atacar esse alvo, como fizeram Michael Moore e Osama Bin Laden, se dispôs a explicá-lo ou, como parece querer o diretor, entendê-lo.

Diante dessa constatação e da certeza de que boa parte do intento das obras do cineasta tem claras motivações polemizadoras, Dogville não seria suficiente para saciar essa sede? Porque lá já existe o que na visão do diretor seria o fim do perdão, uma explicação para o comportamento intoletante da sociedade norte-americana, formada, digamos, de uma maneira selvagem. A experiência da personagem central que termina por renegar a pureza em troca de uma natureza perversa exaltada, revelada, desmascarada pelo meio já não seria um fim por si só? Parece que não porque Grace, ao contrário do que tudo indicava, resolve não tomar outro caminho. A vilania é colocada de lado para, ora, que a experiência seja repetida, reprisada, reforçada. E, assim, para que mais uma faceta da formação do povo norte-americano seja revelada.

Quando Von Trier se predispõe a esse replay seu filme perde toda a força que poderia ter. Se Dogville tinha na forma um de seus maiores alicerces, Manderlay, em sua condição de parte dois, surge com zero de idéias na criação visual. Os jogos de luz, a câmera crua, e o cenário teatral perderam completamente o efeito do choque do filme anterior. São mais do mesmo. As personagens, por mais que haja esforço de alguns atores, também são menos interessantes do que os de antes - e não há Paul Bettany ou Patricia Clarkson. Mas é o texto o mais fraco. Se as provações por que passou Grace e sua capacidade de resistência a elas eram o que mais interessava antes (ou pela repulsa ou pela capacidade de envolvimento), agora não há mais espaço para provação alguma, há apenas a perplexidade - óbvia - diante de uma humanidade subnutrida.

Manderlay
Manderlay, Dinamarca/Holanda/Inglaterra/Suécia/França/Alemanha, 2005.
Direção e Roteiro: Lars Von Trier.
Elenco: Bryce Dallas Howard, Isaach De Bankolé, Willem Dafoe, Danny Glover, Michael Abiteboul, Lauren Bacall, Jean-Marc Barr, Virgile Bramly, Ruben Brinkmann, Doña Croll, Jeremy Davies, Llewella Gideon, Giny Holder, Emmanuel Idowu, Zeljko Ivanek, Wendy Juel, Udo Kier, Rik Launspach, Suzette Llewellyn, Charles Maquignon, Chloë Sevigny, Mona Hammond, John Hurt (narração).
Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Bodil Kjaerhauge e Molly Marlene Stensgard. Direção de Arte: Peter Grant. Figurinos: Manon Rasmussen. Produção: Vibeke Windelov. Site Oficial: Manderlay.Duração: 139 min.

nas picapes: Heroes, David Bowie.

rodapé revoltado: não é extremamente chato - e até mal educado - quando alguém, um amigo seu - ou mais de um - começa a fazer piada da quantidade de filmes que você vê e de quanto tempo você dedica a eles, os filmes, em vez de fazer programas como tomar uma cerveja, ir à praia ou ir a uma boate? E quando resolvem discutir o que você deveria ter feito nas suas férias em vez de ir a mostras e festivais, uma coisa da qual você gosta - mas que para eles pouca importa porque o que conta mesmo é o que eles gostam. E isso é apenas o marco zero para que eles discutam - na sua frente, inclusive - a sua sanidade. Isso mesmo. A sua sanidade é colocada em cheque porque, em vez de ir pra um barzinho, para a praia, para boates, você vai ver filmes. Pois é, eu realmente acho extremamente chato - e até mal educado.

12 de nov de 2005

Oscar 2005: previsões

Oscar 2005: previsões
segunda rodada: novembro de 2005




Entre o fim de setembro e estes primeiros dias de novembro, muita coisa mudou na corrida pelo Oscar. Muitos filmes que pareciam ter chances menores foram catapultados pelo sucesso de crítica em festivais e nas estréias em circuito. Por outro lado, filmes em que se colocava muita expectativa foram frustantes, como Jarhead. Nesse meio tempo, um pré-candidato forte teve sua estréia adiada para 2006, saindo da disputa deste ano: All the King's Men, de Steve Zaillian. Foi também em outubro que eu pude conferir alguns dos principais filmes comentados: Brokeback Mountain, Sra. Henderson Apresenta, Marcas da Violência, Crash, Good Night, and Good Luck, O Jardineiro Fiel, Flores Partidas, Transamerica, A Lula e a Baleia, Café da Manhã em Plutão, A Noiva-cadáver e Por Dentro da Garganta Profunda, todos com chances em alguma categoria. Entre parênteses, as posições na última rodada de previsões.


filme

1 (1) Munich (Universal), de Steven Spielberg
2 (3) Brokeback Mountain (Focus Features), de Ang Lee
3 (5) Walk the Line (Fox), de James Mangold
4 (8) Sra. Henderson Apresenta (The Weinstein Company), de Stephen Frears
5 (7) Memoirs of a Geisha (Columbia), de Rob Marshall

na disputa: 6 (14) Crash (Lions Gate), de Paul Haggis; 7 (2) O Novo Mundo (New Line), de Terrence Malick; 8 (9) Match Point (Dreamworks), de Woody Allen; 9 (15) Good Night, and Good Luck (Warner Independent Pictures), de George Clooney; 10 (4) Jarhead (Universal), de Sam Mendes; 11 (13) A Luta pela Esperança (Universal), de Ron Howard; 12 (10) The Family Stone (Fox), de Thomas Bezucha; 13 (N) Marcas da Violência
(Newline), de David Cronenberg; 14 (N) King Kong (Universal), de Peter Jackson; 15 (N) The Producers (Universal), de Susan Stroman.


direção

1 (1) Ang Lee, por Brokeback Mountain
2 (2) Steven Spielberg, por Munich
3 (3) Woody Allen, por Match Point
4 (6) George Clooney, por Good Night, And Good Luck
5 (4) Terrence Malick, por O Novo Mundo

na disputa: 6 (13) David Cronenberg, por Marcas da Violência; 7 (12)Paul Haggis, por Crash; 8 (10) Rob Marshall, por Memoirs of a Geisha; 9 (7) James Mangold, por Walk the Line; 10 (9) Tommy Lee Jones, por The Three Burials of Melquiades Estrada; 11 (5) Sam Mendes, por Jarhead; 12 (11) Stephen Frears, por Sra. Henderson Apresenta; 13 (14) James Ivory, por The White Countess; 14 (15) Curtis Hanson, por Em Seu Lugar; 15 (N) Ron Howard, por A Luta pela Esperança.


ator

1 (1) Joaquin Phoenix, por Walk the Line
2 (4) Phillip Seymour Hoffman, por Capote
3 (6) Heath Ledger, por Brokeback Mountain
4 (12) Ralph Fiennes, por O Jardineiro Fiel
5 (2) David Strathairn, por Good Night, And Good Luck

na disputa: 6 (14) Eric Bana, por Munich; 7 (5) Tommy Lee Jones, por The Three Burials of Melquiades Estrada; 8 (15) George Clooney, por Syriana; 9 (8) Cillian Murphy, por Café da Manhã em Plutão; 10 (9) Russell Crowe, por A Luta pela Esperança; 11 (N) Terrance Howard, por Hustle & Flow; 12 (13) Bill Murray, por Flores Partidas; 14 (N) Jeff Daniels, por A Lula e a Baleia; 15 (3) Ralph Fiennes, por The White Countess.


atriz

1 (1) Reese Whitterspoon, por Walk the Line
2 (2) Judi Dench, por Sra. Henderson Apresenta
3 (3) Charlize Theron, por North Country
4 (5) Felicity Huffman, por Transamerica
5 (8) Zhang Ziyi, por Memoirs of a Geisha

na disputa: 6 (6) Joan Allen, por A Outra Face da Raiva; 7 (13) Keira Knightley, por Pride and Prejudice; 8 (7) Claire Danes, por Shopgirl; 9 (10) Gwyneth Paltrow, por A Prova; 10 (9) Julianne Moore, por The Prize Winner of Defiance, Ohio; 11 (15) Natasha Richardson, por The White Countess; 12 (N) Q'Orianka Kilcher, por O Novo Mundo; 13 (N) Cameron Diaz, por Em Seu Lugar; 14 (12) Meryl Streep, por Prime; 15 (N) Rosario Dawson, por Rent.


roteiro original

1 (1) Woody Allen, por Match Point
2 (2) Paul Haggis & Bobby Moresco, por Crash
3 (9) Martin Sherman, por Sra. Henderson Apresenta
4 (5) George Clooney & Grant Heslov, por Good Night, And Good Luck
5 (6) Thomas Bezucha, por The Family Stone

na disputa: 6 (3) Guillermo Arriaga, por The Three Burials of
Melquiades Estrada
; 7 (N) Noah Naumbach, por A Lula e a Baleia; 8 (7) Terrence Malick, por O Novo Mundo; 9 (N) Richard Shepard, por The Matador; 10 (11) Akiva Goldsman & Cliff Hollingsworth, por A Luta pela Esperança; 11 (8) Kazuo Ishiguro, por The White Countess; 12 (12) Jim Jarmusch, por Flores Partidas; 13 (N) Duncan Tucker, por Transamerica; 14 (15) Nick Park, por Wallace & Gromit em A Batalha dos Vegetais; 15 (10) Cameron Crowe, por Tudo Acontece em Elizabethtown.


roteiro adaptado

1 (1) Larry McMurtry & Diana Ossana, por Brokeback Mountain
2 (4 em original) Tony Kushner & Eric Roth, por Munich
3 (4) Gill Dennis & James Mangold, por Walk the Line
4 (7) Ron Bass & Akiva Goldsman & Robin Swicord & Doug Wright, por Memoirs of a Geisha
5 (11) Stephen Gaghan, por Syriana

na disputa: 6 (8) Jeffrey Caine, por O Jardineiro Fiel; 7 (13) Dan
Futterman, por Capote; 8 (N) Deborah Moggach, por Pride and Prejudice; 9 (10) Josh Olson, por Marcas da Violência; 10 (3) William Broyles, Jr, por Jarhead; 11 (2) Susannah Grant, por Em Seu Lugar; 12 (N) Mel Brooks & Thomas Meehan, por The Producers; 13 (6) Steve Martin, por Shopgirl; 14 (9) Michael Seitzman, por North Country; 15 (14) Rebecca Miller & David Auburn, por A Prova.


ator coadjuvante

1 (2) Bob Hoskins, por Sra. Henderson Apresenta
2 (5) Matt Dillon, por Crash
3 (6) Paul Giamatti, por A Luta pela Esperança
4 (9) Geoffrey Rush, por Munich
5 (N) Christopher Plummer, por Syriana

na disputa: 6 (N) Craig T. Nelson, por The Family Stone; 7 (4) Clifton Collins Jr., por Capote; 8 (7) Jake Gyllenhaal, por Brokeback Mountain; 9 (8) Barry Pepper, por The Three Burials of Melquiades Estrada; 10 (15) William Hurt, por Marcas da Violência; 11 (1) Peter Sarsgaard, por Jarhead; 12 (N) Richard Jenkins, por North Country; 13 (N) Matthew Broderick, por The Producers; 14 (N) Terrance Howard, por Crash; 15 (13) Daniel Craig, por Munich.


atriz coadjuvante

1 (4 em protagonista) Diane Keaton, por The Family Stone
2 (5) Scarlett Johansson, por Match Point
3 (2) Maria Bello, por Marcas da Violência
4 (8) Gong Li, por Memoirs of a Geisha
5 (15) Rachel Weisz, O Jardineiro Fiel

na disputa: 6 (3) Frances McDormand, por North Country; 7 (7) Michelle Williams, por Brokeback Mountain; 8 (N) Uma Thurman, por The Producers; 9 (N) Amy Adams, por Junebug; 10 (1) Shirley MacLaine, por Em Seu Lugar; 11 (N) Michelle Yeoh, por Memoirs of a Geisha; 12 (9) Thandie Newton, por Crash; 13 (10) Catherine Keener, por Capote; 14 (11) Susan Sarandon, por Tudo Acontece em Elizabethtown; 15 (12) Q' Oriana Kilcher, O Novo Mundo.


filme estrangeiro

1 (4) Tsotsi (África do Sul), de Gavin Hood
2 (2) Uma Mulher contra Hitler (Alemanha), de Marc Rothemund
3 (3) Joyeux Noël (França), de Christian Carion
4 (5) The Promise (China), de Chen Kaige
5 (14) 2 Filhos de Francisco (Brasil), de Breno Silveira

na disputa: 6 (6) Obaba (Espanha), de ?; 7 (7) Perhaps Love (Hong Kong), de Peter Chan; 8 (8) C.R.A.Z.Y. (Canadá), de Jean-Marc Vallée; 9 (N) Fateless (Hungria), de Lajos Koltai; 10 (9) Mother of Mind (Finlândia), de Klaus Härö; 11 (11) A Criança (Bélgica), de Jean-Pierre & Luc Dardenne; 12 (13) Totally Personal (Bósnia-Herzegovina), de Nedz¹ad Begovic; 13 (15) Adams Apple (Dinamarca), de Anders Thomas Jensen; 14 (N) A Morte do Sr. Lazarescu (Romênia), de Cristi Puiu; 15 (1) Caché (Áustria), de Michael Haneke.


documentário

1 (1) A Marcha do Imperador, de Luc Jacquet
2 (4) Mad Hot Ballroom, de Marilyn Agrelo
3 (2) Murderball, de Henry Rubin & Dana Shapiro
4 (3) Rize, de David LaChapelle
5 (8) Por Dentro da Garganta Profunda, de Fenton Bailey e Randy Barbato

na disputa: 6 (5) Grizzly Man, de Werner Herzog; 7 (6) Enron: The Smartest Guys in the Room, de Alex Gibney; 8 (7) Sicko, de Michael Moore; 9 (9) The Aristocrats, de Paul Provenza.


animação

1 (4) O Galinho Chicken Little, de Mark Dindal
2 (2) Wallace & Gromit em A Batalha dos Vegetais, de de Steve Box e Nick Park
3 (1) A Noiva-Cadáver, de Tim Burton

na disputa: 4 (3) Madagascar, de Eric Darnell e e Tom McGrath; 5 (5) O Castelo Animado, de Hayao Miyazaki; 6 (6) Robôs, de Chris Wedge; 7 (7) Steamboy, de Katshuhiro Otomo; 8 (8) Valiant, de Gary Chapman; 9 (N) Hoodwinked, de Cory Edwards.

Oscar 2005: previsões

Oscar 2005: previsões
segunda rodada: novembro de 2005



fotografia

1 (3) Rodrigo Prieto, por Brokeback Mountain
2 (1) Dion Beebe, por Memoirs of a Geisha
3 (2) Emmanuel Lubezki, por O Novo Mundo
4 (5) Janusz Kaminski, por Munich
5 (4) Roger Deakins, por Jarhead

na disputa: 6 (6) Robert Elswit, por Good Night, And Good Luck; 7 (9) Salvatore Totino, por A Luta pela Esperança; 8 (8) Chris Menges, por The Three Burials of Melquiades Estrada; 9 (10) Christopher Doyle & Tony Pierce Roberts, por The White Countess; 10 (12) César Charlone, por O Jardineiro Fiel; 11 (N) Laurent Chalet e Jérôme Maison, por A Marcha do Imperador; 12 (11) Andrew Lesnie, por King Kong; 13 (15) Philipe Rousselot, por A Fantástica Fábrica de Chocolate; 14 (N) Adam Kimmel, por Capote; 15 (N) Phedon Papamichael, por Walk the Line.


montagem

1 (1) Michael Kahn, por Munich
2 (4) Geraldine Peroni & Dylan Tichenor, por Brokeback Mountain
3 (5) Michael McCusker, por Walk the Line
4 (6) Pietro Scalia, por Memoirs of a Geisha
5 (7) Hughes Winborne, por Crash

na disputa: 6 (2) Walter Murch, por Jarhead; 8 (12) Stephen Mirrione, por Good Night, And Good Luck; 9 (3) Richard Chew & Hank Corwin & Saar Klein, por O Novo Mundo; 10 (11) Daniel Hanley & Mike Hill, por A Luta pela Esperança; 11 (9) Jamie Selkirk, por King Kong; 12 (10) Claire Simpson, por O Jardineiro Fiel; 13 (N) Lucia Zucchetti, por Sra. Henderson Apresenta; 14 (13) Ronald Sanders, por Marcas das Violência; 15 (N) Alisa Lepselter, por Match Point.


trilha sonora

1 (1) John Williams, por Memoirs of a Geisha
2 (2) Gustavo Santaolalla, por Brokeback Mountain
3 (4) Thomas Newman, por A Luta pela Esperança
4 (10) George Fenton, por Sra. Henderson Apresenta
5 (7) Danny Elfman, por A Noiva-Cadáver

na disputa: 6 (6) John Williams, por Munich; 7 (3) James Horner & J. Peter Robinson, por O Novo Mundo; 8 (5) Danny Elfman, por A Fantástica Fábrica de Chocolate; 9 (9) Howard Shore, por King Kong; 10 (13) Richard Robbins, por The White Countess; 11 (N) Alexandre Desplat, por Casanova; 12 (8) Thomas Newman, por Jarhead; 13 (12) Michael Giacchino, por The Family Stone; 14 (N) Patrick Doyle, por Harry Potter e o Cálice de Fogo; 15 (N) John Debney, por O Galinho Chicken Little.


canção

1 (6) "A Love that Will Never Grow Old" (Emmylou Harris), de Brokeback Mountain
2 (7) "In the Deep" (Bird York), de Crash
3 (2) "Tears to Shed" (Danny Elfman e John August), de A Noiva-Cadáver
4 (4) "There's Nothing Like a Show on Broadway" (Mel Brooks), de The Producers
5 (N) "One Little Slip" (Barenaked Ladies), de O Galinho Chicken Little

na disputa: 6 (N) "Remains of the Day" (Danny Elfman), de A Noiva-Cadáver; 7 (1) "The Maker Makes" (Rufus Wainwright), de Brokeback Mountain; 8 (N) "?" (Evanescence), de As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa; 9 (N) "Dreamer" (Bethany Dillon), de Dreamer; 10 (12) "Hustle & Flow (It Ain't Over)" (Al Kapone), de Hustle & Flow; 11 (8) "I'll Be With You" (Scott Mallone), de Palavra de Amor; 12 (13) "?" (?), de Get Rich Or Die Tryin?; 13 (9) "Wonka's Welcome Song" (Danny Elfman), de A Fantástica Fábrica de Chocolate; 14 (N) "This is the Night" (Radiohead), de Harry Potter e o Cálice de Fogo; 15 (N) "So Long and Thanks for All the Fish" (Joby Talbot, Garth Jennings, & Christopher Austin), de O Guia do Mochileiro das Galáxias.


direção de arte

1 (1) John Myhre, por Memoirs of a Geisha
2 (6) Hugo Luczyc Whyhowski, por Sra. Henderson Apresenta
3 (2) Jack Fisk, por O Novo Mundo
4 (3) Alex McDowell, por A Fantástica Fábrica de Chocolate
5 (5) Wynn Thomas, por A Luta pela Esperança

na disputa: 6 (4) Grant Major, por King Kong; 7 (9) Judy Becker, por Brokeback Mountain; 8 (10) Mark Friedberg, por The Producers; 9 (N) David Bomba, por Walk the Line; 10 (7) Roger Ford, por As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa; 11 (12) Rick Carter, por Munich; 12 (15) James D. Bissell, por Good Night, And Good Luck; 13 (N) Sarah Greenwood, Pride and Prejudice; 14 (13) David Gropman, por Casanova; 15 (14) Andrew Sanders, por The White Countess.


figurinos

1 (1) Colleen Atwood, por Memoirs of a Geisha
2 (2) Sandy Powell, por Sra. Henderson Apresenta
3 (7) Jenny Beavan, por Casanova
4 (9) Arianne Phillips, por Walk the Line
5 (8) Jacqueline Durran, por Pride and Prejudice

na disputa: 6 (11) Daniel Orlandi, por A Luta pela Esperança; 7 (6) ?, por The White Countess; 8 (12) William Ivey Long, por The Producers; 9 (3) Jacqueline West, por O Novo Mundo; 10 (N) Louise Frogley, por Good Night, And Good Luck; 11 (5) Gabriela Pescucci, por A Fantástica Fábrica de Chocolate; 12 (4) Anna B Shephard, por Oliver Twist; 13 (10) Isis Mussenden, por As Crônicas de Nárnia: O Leão, a
Feiticeira e o Guarda-Roupa
; 14 (13) Janty Yates, por Cruzada; 15 (N) ?, por The Libertine.


maquiagem

1 (2) Memoirs of a Geisha
2 (3) A Fantástica Fábrica de Chocolate
3 (6) As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa

na disputa: 4 (3) O Novo Mundo; 5 (N) The Producers; 6 (N) King Kong; 7 (1) Os Irmãos Grimm; 8 (8) Sin City; 9 (N) Harry Potter e o Cálice de Fogo.


sonoplastia

1 (2) King Kong
2 (6) Walk the Line
3 (3) Guerra dos Mundos
4 (1) Jarhead
5 (8) Munich

na disputa: 6 (12) Memoirs of a Geisha; 7 (5) O Novo Mundo; 8 (7) The Producers; 9 (N) Sra. Henderson Apresenta; 10 (4) Star Wars: Episódio III - A Vingança dos Sith; 10 (11) Brokeback Mountain; 11 (9) As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa; 12 (10) Batman Begins; 13 (15) A Lenda do Zorro; 14 (N) A Luta pela Esperança; 15 (N) Cruzada.


edição de som

1 (1) Guerra dos Mundos
2 (2) King Kong
3 (4) Star Wars: Episódio III - A Vingança dos Sith

na disputa: 4 (5) Batman Begins; 5 (N) Harry Potter e o Cálice de Fogo; 6 (3) Jarhead; 7 (N) O Novo Mundo; 8 (N) The Producers; 9 (8) As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa.


efeitos visuais

1 (1) King Kong
2 (2) Guerra dos Mundos
3 (3) Star Wars: Episódio III - A Vingança dos Sith

na disputa: 4 (6) Harry Potter e o Cálice de Fogo; 5 (4) As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa; 6 (5) Batman Begins; 7 (8) Constantine; 8 (N) Cruzada; 9 (7) Sin City.

11 de nov de 2005

Um homem de família



Há um limite quase invisível entre o sério e o bufo no novo filme de David Cronenberg. Um limite que pode ser enxergado com uma analogia de como a violência está perto do espetáculo no mundo atual, sobretudo nos Estados Unidos. Talvez seja esse o ponto central do filme, que o transporta da condição de cinemão para cinema grande. Compará-lo às tentativas mais escandalosas de lembrar da paixão norte-americana pelo que se convencionou chamar de cultura da violência (Assassinos por Natureza, de Oliver Stone, ou Tiros em Columbine, de Michael Moore) chega a ser covardia tamanha a sutileza de Cronenberg diante da questão.

O que chega a ser genial em Marcas da Violência - mais um exemplo de como um título bonito consegue ser deformado no Brasil - é justamente como Cronenberg coordena duas coisas: primeiro, a passagem do pequeno (a história da família) para o gigante (como ela reflete o país). Isso acontece com absoluta elegância, muito distante de qualquer caráter panfletário ou de denúncia, num crescendo de roteiro e direção, que, guardando todas as diferenças, me pareceu muito próximo do que Rithy Pahn conseguiu no maravilhoso Os Atores do Teatro Queimado. O segundo ponto é como todos esses signos estão mascarados sob a égide do filme de porrada, com cenas quase cômicas, cuja reação da platéia, inclusive, me incomodou muito, a princípio. Nada como o tempo para me mostrar que esse talvez seja o grande golpe do filme.

Mas Cronenberg vai além. Utilizando uma lógica muito cara aos quadrinhos, de onde a história foi emprestada, ele, além de tudo, consegue fazer um filme sobre a família. Aquela família que é você quem escolhe e sobre o futuro, aquele futuro que é você quem desenha. No filme do canadense, Tom Stall escolheu sua parceira e com ela teve seus dois filhos. E nada vai fazer com que ele desista da família dele ou do futuro que ele desenhou pra ela. Nada que venha de fora, nada que venha de dentro. A silenciosa última cena, que, acreditem, eu ouvi um comentário numa fila da Mostra de que parece um final de produtor, é o laço mais perfeito - e mais coerente com tudo o que se viu na tela - no presente que Cronenberg escolheu para seu espectador.

Marcas da Violência
A History of Violence, Estados Unidos, 2005.
Direção: David Cronenberg.
Roteiro: Josh Olson, baseado em graphic novel de John Wagner e
Vince Locke.
Elenco: Viggo Mortensen, Maria Bello, Ed Harris, William Hurt, Ashton Holmes, Peter MacNeill, Stephen McHattie, Greg Bryk, Sumela Kay, Kyle Schmid, Deborah Drakeford, Gerry Quigley, Heidi Hayes, Aidan Devine.
Fotografia: Peter Surschitzky. Montagem: Ronald Sanders.
Direção de Arte: Carol Spier. Música: Howard Shore.
Figurinos: Denise Cronenberg. Produção: Chris Bender, David Cronenberg e J.C. Spink. Site Oficial: Marcas da Violência.Duração: 96 min.

nas picapes: Love Minus Zero, Bob Dylan.

10 de nov de 2005

Ranking do ano (até 7/11)



melhores do ano

1 (1) Clean, de Olivier Assayas
2 (2) Um Filme Falado, de Manoel de Oliveira
3 (N) Marcas da Violência, de David Cronenberg
4 (3) A Menina Santa, de Lucrecia Martel
5 (6) A Vida Marinha com Steve Zissou, de Wes Anderson
6 (5) Guerra dos Mundos, de Steven Spielberg
7 (4) Bom Dia, Noite, de Marco Bellocchio
8 (8) Terra dos Mortos, de George A. Romero
9 (7) O Aviador, de Martin Scorsese
10 (N) Cinema, Aspirina e Urubus, de Marcelo Gomes

David Cronenberg surge entre os melhores porque seu filme é genial e extremamente simples (ou parece ser). Um texto maior sobre ele ainda vai sair. Para o filme do Marcelo Gomes posso usar a mesma frase. E fazer a mesma promessa. De resto, algumas alterações e a certeza de que Assayas e Oliveira fizeram meus dois filmes do ano.

piores do ano



1 (1) Quanto Vale ou é por Quilo?, de Sérgio Bianchi
2 (2) Em Busca da Terra do Nunca, de Marc Foster
3 (3) Closer - Perto Demais, de Mike Nichols
4 (N) Crash, de Paul Haggis
5 (4) Provocação, de Tod Williams
6 (5) Contra a Parede, de Fatih Akin
7 (8) O Operário, de Brad Anderson
8 (6) Jogos Mortais, de James Wan
9 (7) O Massacre da Serra Elétrica, de Marcus Nispel
10 (9) Quatro Irmãos, de John Singleton

Paul Haggis estreou com louvor na lista e pode subir com o tempo já que seu filme é muito mais importante do que alguns outros. Difícil é alguém conseguir tirar o Bianchi do trono este ano.

9 de nov de 2005

A câmera como espelho



Eu acho que entendo porque tanta gente que eu conheço se declarou decepcionada com Cidade Baixa. O primeiro longa de ficção de Sérgio Machado não é um filme fácil como a sinopse possa fazer parecer: dois amigos se apaixonam pela mesma mulher, uma espécie de Jules et Jim tropical, como alguns escreveram. A semelhança pára por aí já que o filme do cineasta baiano é um filme decepcionante para muita gente justamente porque Machado guardou muito da herança do belo Onde a Terra Acaba, o documentário que dirigiu sobre Mário Peixoto há alguns anos.

Na sua câmera inquieta e econômica, no seu roteiro de poucas palavras, na apresentação e desenvolvimento das personagens, Cidade Baixa é tão documental quanto o trabalho anterior do diretor. E um filme com uma história assim demanda expectativas dramáticas, que não apenas não são supridas pela direção e pelo roteiro como são, inclusive, negadas. Quanto Machado liga a câmera, ele está lá para mostrar, não há intenção ficcional, não há grandes artifícios teatrais, não há verborragia ou grandes apelos narrativos.

E talvez o mais importante: há o Nordeste urbano, a grande metrópole e suas criaturas marginais e não o sertanejo e a seca e o exótico e o atrasado e o rudimentar como foco. O Nordeste não é personagem aqui.

É justamente nesta tradução do triângulo amoroso, sem firulas e frufrus, sem contextos propícios para que a caricatura e o encanto pelo tosco sirvam para afirmar as personagens e torná-los "bonitinhos", que está o grande mérito do filme. Em seu cinema como retrato, Machado revigora um elogio ao cinematográfico que andava bastante esquecido pelos filmes brasileiros - adeptos e dependentes da historinha - e percorre as ruas menos "interessantes" de Salvador para tentar se aproximar do simples, do bruto (eu fico impressionado como as pessoas ainda se incomodam com sexo. Eu fico impressionado como as pessoas ainda se incomodam com palavrões). Sendo assim, ainda que reconheça o talento de Lázaro Ramos e Wagner Moura, com Wagner muito melhor do que Lázaro, "ator demais" no filme, é em Alice Braga e sua economia dramática que Cidade Baixa ganha seu melhor e mais furioso espelho.

Cidade Baixa
Cidade Baixa, Brasil, 2005.
Direção:: Sérgio Machado.
Roteiro: Sérgio Machado e Karim Aïnouz, com a colaboração de Adriana Rattes e Gil Vicente Tavares.
Elenco: Wagner Moura, Lázaro Ramos, Alice Braga, Harildo Deda, Maria Menezes, João Miguel, Débora Santiago, Divina Valéria, José Dumont, Dois Mundos.
Fotografia: Toca Seabra. Montagem: Isabela Monteiro de Castro. Direção de Arte: Marcelo Torres. Música: Carlinhos Brown e Beto Villares. Figurinos: Cristina Camargo e André Simonetti. Produção: Maurício Andrade Ramos e Walter Salles. Site Oficial: Cidade Baixa. Duração: 93 min.

nas picapes: Zambie Mameto, Carlinhos Brown.

8 de nov de 2005

Conto de fadas pouco macabro



O que mais faz falta nessa nova incursão de Tim Burton pelas animações tradicionais é justamente o macabro que é tão insinuado no tema, na forma, na intenção. A Noiva-cadáver sofre bastante pelo quanto é um filme parecido com seus parentes menos charmosos, principalmente na concepção de suas personagens e na própria história, tão sem graça e cheia de lugares comuns quanto alguns dos últimos desenhos da Disney. Há, para não ser completamente injusto com o filme, o mérito de tratar a morte como um assunto qualquer para as crianças, que são o alvo inegável, o que pode ter me incomodado um pouco já que ultimamente temos sido acostumados com filmes de animação que tem elementos bem mais adultos.

Mesmo assim, é um filme que tem muitos encantos em suas qualidades mais, digamos, cinematográficas. Primeiro, há o óbvio da direção de arte, melhor do que muito filme em carne-e-osso do próprio Alex McDowell, que talvez seja quem mais acredite no lado mais obscuro do filme. Há um impressionante trabalho de fotografia, ou para ser mais espefício de iluminação, que consegue efeitos óticos belíssimos, além de ser bastante ousado ao oferecer um filme infantil que é quase em preto-e-branco em boa parte de sua projeção e, por outro lado, é ainda é extremamente coerente com o cinema de Burton, em sua defesa do mágico (o mundo do vivos tem quase nenhuma cor e o mundo dos mortos é um carnaval). Mas não há nada que tenha me chamado mais a atenção do que a trilha sonora. Danny Elfman, muito perto do sublime nas composições intrumentais (as duas cenas no piano têm música lindas, lindas) e as canções... bem, as canções são uma delícia.

A Noiva-cadáver
Tim Burton's Corpse-Bride, Estados Unidos, 2005.
Direção:: Tim Burton e Mike Johnson.
Roteiro: Caroline Thompson, baseado em roteiro de John August e Pamela Pettler.
Elenco: Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Emily Watson, Tracey Ullman, Paul Whitehouse, Joanna Lumley, Albert Finney, Richard E. Grant, Christopher Lee, Michael Gough, Jane Horrocks, Enn Reitel, Deep Roy, Danny Elfman, Stephen Ballantyne.
Fotografia: Pete Kozachik. Montagem: Jonathan Lucas. Direção de Arte: Alex McDowell. Música: Danny Elfman (e Mike Adams). Produção: Allison Abbate e Tim Burton. Site Oficial: A Noiva-Cadáver. Duração: 78 min.

nas picapes: Remains of the Day, Danny Elfman.

7 de nov de 2005

Cronologia das tragédias (ou: o desinteresse pela ética e pelo homem)



Paul Haggis assinou o roteiro de um dos filmes mais prestigiados do ano, mas era justamente o roteiro o que me incomodava em Menina de Ouro. Era justamente o texto, a história que nunca me fizeram enxergar a obra-prima avistada por muitos, ou quase todos, no filme de Clint Eastwood. Apesar de ter uma delicadíssima direção, o roteiro nunca conseguia fugir de lugares comuns dos mais toscos e alguns textos, sobretudo na narração em off de Morgan Freeman, eu classificaria sem pensar duas vezes de constrangedores.

Eis então que Haggis passa a direção, num filme elogiadíssimo pela imprensa norte-americana, cotado como possível representante do "cinema independente" entre as indicações ao Oscar, com um belo elenco cheio de atores talentosos (Cheadle, Newton, Dillon). Eu realmente achei que iria gostar do filme, mas o único sentimento que ele me causou foi repulsa. Repulsa não por causa do tratamento primário à questão racial (inclusive numa época em que o conceito de raça já foi derrubado), mas num prisma um pouco maior. Uma amiga que assistiu ao filme comigo e recentemente tinha voltado dos Estados Unidos tentou me convencer do quanto o confronto entre raças é real naquele país e o quanto o filme tem de fiel nesse retrato.

Mas eu realmente não acho que seja esta a questão seja essa, a da fidelidade a uma situação abstrata. O que mais me incomoda em Crash é sua visão determinista de como todos estamos destinados a nos corromper de alguma maneira, de como estamos fadados ao racismo, à intolerância, a irmos de encontro à ética. Haggis não acredita no ser humano enquanto elemento ativo diante de seu próprio cotidiano. Para ele, o homem se adapta às situações independentemente de um ponto de vista moral anterior sobre isso. A corrupção é questão de tempo. Ou ainda não se teve a chance de se corromper ou a fatalidade conspira para que o herói vire vilão. Porque no filme quem é bonzinho ou se corrompe ou é levado pelo acaso à corrupção. E quem é malvado é forçado pela vida a algum tipo de rendenção.

Não se trata do quanto de real isso possa ter, mas de como é cômodo ou ingênuo ou traiçoeiro tranformar certas situações em padrões comportamentais ou casualidades trágicas da vida. Se Haggis acredita mesmo em sua visão das pessoas como espelho sociológico dos Estados Unidos e/ou do mundo, eu o chamaria de limitado e equivocado por não defender suas personagens na mesma medida em que não defende o homem, que surge como produto do meio. Se ele usa essa cronologia da tragédia para buscar afirmação através do quão as pessoas estão propensas a achar tudo que "mostra a verdade" muito digno, eu o chamaria de um verdadeiro vilão. Mas como eu costumo acreditar nas pessoas, espero que a primeira opção seja a real.

Crash - No Limite
Crash, Estados Unidos, 2004.
Direção:: Paul Haggis.
Roteiro: Paul Haggis e Robert Moresco, baseado em história de Paul Haggis.
Elenco: Karina Arroyave, Dato Bakhtadze, Sandra Bullock, Don Cheadle, Art Chudabala, Tony Danza, Keith David, Loretta Devine, Matt Dillon, Jennifer Esposito, Ime Etuk, Eddie J. Fernandez, William Fichtner, Brendan Fraser, Billly Gallo, Ken Garito, Nona Gaye, Terrence Howard, Ludacris, Thandie Newton,
Ryan Phillippe, Alexis Rhee, Ashlyn Sanchez, Larenz Tate.
Fotografia: James Muro. Montagem: Hughes Winborne. Direção de Arte: Laurence Bennett. Música: Mark Isham. Figurino: Linda M. Bass. Produção: Don Cheadle, Paul Haggis, Mark R. Harris, Cathy Schulman e Bob Yari. Site Oficial: Crash. Duração: 113 min.

nas picapes: Tears to Shed, Danny Elfman.

3 de nov de 2005

Mostra de Cinema de São Paulo



melhores filmes:
1 O Mundo, de Jia Zhang-ke.
2 Reis e Rainha, de Arnaud Desplechin.
3 Marcas da Violência, de David Cronenberg.
4 Os Atores do Teatro Queimado, de Rithy Panh.
5 Caché, de Michael Haneke.
6 Cinema, Aspirina e Urubus, de Marcelo Gomes.
7 2046, de Wong Kar Wai.
8 O Inferno, de Danis Tanovic.
9 Good Night, and Good Luck, de George Clooney.
10 A Lula e a Baleia, de Noah Baumbach.
11 Brokeback Mountain, de Ang Lee.
12 Flores Partidas, de Jim Jarmusch.
13 Espelho Mágico, de Manoel de Oliveira.
14 Café da Manhã em Plutão, de Neil Jordan.
15 Por um Mundo Menos Pior, de Alejandro Agresti.
16 Impulsividade, de Mike Mills.
17 Trilogia - O Vale dos Lamentos, de Theo Angelopoulos.
18 Seven Swords, de Tsui Hark.
19 Eleição, de Johnny To.
20 Noiva e Preconceito, de Gurinder Chadha.

outros destaques:
Por Dentro da Garganta Profunda, de Fenton Bailey e Randy Barbato; Além do Azul Selvagem, de Werner Herzog; Cidade Baixa, de Sérgio Machado; Estrela Solitária, de Wim Wenders; Um Lobisomem na Amazônia, de Ivan Cardoso.

melhor direção:
Jia Zhang-ke, por O Mundo

melhor ator:
Mathieu Almaric, por Reis e Rainha

melhor atriz:
Emmanuelle Béart, por O Inferno

melhor ator coadjuvante:
Vincent D'Onofrio, por Impulsividade

melhor atriz coadjuvante:
Maria Bello, por Marcas da Violência,

melhor roteiro:
Reis e Rainha

melhor fotografia:
O Mundo

melhor montagem:
Reis e Rainha

melhor direção de arte:
2046

melhor música:
Eleição

melhor som:
Seven Swords

piores filmes:
1 Palindromes, de Todd Solondz.
2 Carreiras, de Domingos Oliveira.
3 Batalha no Céu, de Carlos Reygadas.
4 Be Movies: programa 2, de Khavn.
5 Nuvens Carregadas, de Tsai Ming-Liang.

melhor episódio de Todas as Crianças Invisíveis:
Bilu e João, de Katia Lund.

pior episódio de Todas as Crianças Invisíveis:
Os de John Woo, Stefano Veneruso, Mehdi Charef e Jordan & Ridley Scott, empatados.

2 de nov de 2005

Mostra de Cinema de São Paulo: rapidinhas 13



Reis e Rainha , de Arnaud Desplechin.

Último dia de Mostra pra mim; um filme maravilhoso. O que a estrutura do longa de Desplechin tem de complexa, tem de inteligente. O filme se costura a partir da desconstrução de si mesmo. Eu pessoalmente fiquei impressionado em como Desplechin é hábil nesta tarefa nada banal: estabelecer a partir da negação. O roteiro e a montagem são articuladíssimos com o desenvolvimento das personagens, interesse principal do filme. Emmanuelle Devos e Mathieu Almaric, os dois deslumbrantes, lideram um elenco onde todos - absolutamente todos - são interessantes, ricos, multifacetados. Há um punhado de cenas belíssimas e a coopção total do espectador. Abrir e fechar o filme com "Moon River" é um golpe genial.



Carreiras , de Domingos Oliveira.

Além da completa ignorância de como funciona uma redação de televisão e da visão preconceituosíssima do jornalista como figura desumana, vendida, corrupta e drogada, o filme sofre pela precariedade de texto e por praticamente (e acovardadamente, talvez) transformar Priscilla Rozenbaum numa versão Domingos Oliveira com dicção melhor, efusivazinha, verborragicazinha, inquietazinha. Para um filme que abre com um pedido de desculpas por existir que se transforma em "me aceitem do jeito que eu sou e me defendam" logo depois, era pedir demais qualquer coisa diferente.



Batalha no Céu , de Carlos Reygadas.

"É pau, é cu, é boceta", já diria o Otto (que uns amigos meus perversinhos chamam de Idiotto), tadinho. Eu até gosto dele. Mas essa é bem a idéia do novo filme do aclamadinho Reygadas. A poesia é bruta e a mensagem vem em golpes de faca. Deixando de lado o exibicionismo do sexo explícito - ou alguém me convence que aquele boquete tinha sentimentos? (e aqui eu não faço nenhum tipo de alusão ou julgamento de The Brown Bunny, pelo único e exclusivo fato de não tê-lo visto, mas a) eu não gosto da estréia de Reygadas, Japón e b) eu gosto muito da estréia de Vincent Gallo, Buffalo 66) -, o filme ainda usa a grotesca tática de já deixar o espectador numa encruzilhada: reclamar do sexo entre pessoas muito gordas (e da câmera insistentemente fixa em seus corpos nus) vira preconceito crudelíssimo de pessoas regradas pelo belo clássico e fica complicado afirmar que o diretor é quem foi o crápula ao explorar essa "característica" sob a alcunha do cinema de autor. Há uma cena em 360º de movimento de câmera que é bem boa, mas de resto tudo parece algo entre o cinema de universitário querendo mostrar que sabe tudo da linguagem e a estética do choque pelo choque. A questão que seria a central do filme vira coadjuvante... sem luxo.

P.S.: agradecimentos mil ao Fábio e à Maíra, que me deram teto durante 15 dias, depois de meus planos a e b furarem repentinamente. Preciso deixar registrado aqui também meu encontro com o Michel Simões, no final da sessão de Eleição, que resultou num bate-papo divertido e numa carona, e o reencontro com o Daniel Libarino, com filme visto junto e tudo. Amanhã postos um Top 10 da Mostra e comento os resultados do júri e do público. O Mundo levou o prêmio da crítica. Merecidíssimo.

Mostra de Cinema de São Paulo: rapidinhas 12



Memórias Ocultas , de Buddhadev Dasgupta.

Os elementos mágicos do filme são seu maior problema já que o roteiro é capaz de criar situações complexas, dirigidas com simplicidade e eficiência. As intervenções do não-factual parecem perdidas no meio de tantas informações sobre a família que protagoniza o filme. Sem elas, o novo longa de Dasgupta estaria bem perto de ser uma obra-prima, já que há alguns momentos assim. O ator que faz Sumanta é muito bom.



Humilhação , de Masahiro Kobayashi.

Filme que tem pena da personagem raramente me agrada. Esse, além de ter pena, é completamente incompetente em causar identificação com a protagonista. O filme é bem econômico no tempo, mas aproveita muito mal seus 82 minutos em reprovar o constrangimento e fazer disso uma linha narrativa para justificar a preguiça em desenvolver melhor a personagem.



Eleição , de Johnny To.

Caminhava a passos largos para ser um dos melhores filmes da Mostra, como filme de gângster deslocado do seu cenário, com os coadjuvantes comandando a ação, inteligente e muito bem dirigido. Mas depois do seu clímax, quando se resolve a quaestão central da história, segue um caminho tão mal delineado - com cenas dispensáveis (como a no topo do prédio) e uma tentativa de mostrar a corrupção "da alma" como algo indenfensável - que faz o longa perder bastante seu impacto. Johnnie To é hábil - há muitos momentos sublimes -, mas não soube resolver seu filme.



Nuvens Carregadas , de Tsai Ming-Liang.

Difícil dizer o que Ming-Liang pretendia com este filme, que retoma as personagens de Que Horas São Aí? e do curta A Passarela se Foi numa seqüência com ausência absoluta do que dizer. O diretor parece mais preocupado em convencer pelo riso fácil, baseadas em gags esquisitinhas, ou pelas numerosas cenas de sexo. Os números musicais, cinco, se eu não me engano, vão do bonitinho (o das mulheres e o dos guarda-chuvas à apelação (o do pênis).

1 de nov de 2005

Mostra de Cinema de São Paulo: rapidinhas 11



Mongolian Pingpong , de Ning Hao.

A exporação do exótico para vender um filme? A princípio, era essa a impressão sobre este filme, mas o longa das belíssimas paisagens naturais da Mongólia se sustenta mesmo é no roteiro e na capacidade de encantamento pelas crianças. A bolinha de pingpong, ao contrário da garrafa de Coca-cola em Os Deuses Devem Estar Loucos, não surge para revirar o status quo, mas para revelá-lo. É a partir da chegada dela que se estabelece o cotidiano, as regras, o pensamento das famílias rurais da região. Isso, mais o texto engraçado dos meninos, fazem esse filme valer a pena.



Noiva e Preconceito , de Gurinder Chadha.

Orgulho e Preconceito, o conto casamenteiro do amor verdadeiro de Jane Austen, em versão indiana e musical. Tinha tudo para dar errado, e na mesma perigosa aproximação do filme anterior, poderia ter abraçado o exotismo para fazer carreira. Bem, há quem possa enxergar o filme assim, mas aqui se trata de Bollywood, a maior indústria de filmes do mundo, cerca de mil por ano, e a busca pelo popular, se exalta a Índia colorida e festiva, também trata de alfinetar essa visão turística do país. No meio de tudo isso, há um belo exercício de homenagem aos musicais hollywoodianos, com devaneios narrativos muito bem inseridos na trama e uma concepção visual/musical light-hearted completamente segura de seus exageros. Uma delícia.



Pavão , de Gu Changwei.

O grande mérito desse melodrama clássico é quando ele se revela dividido em três e, por isso mesmo, com visões múltiplas de si mesmo. Há uma seqüência em especial 9são três cenas interligadas) que é belíssima, onde um ganso serve de exemplo para um crime. Changwei, diretor de fotografia de Adeus, Minha Concubina (1993), é meticuloso com a imagem (a composição de cada quadro é impecável e a câmera se movimenta com muita fluidez), mas ainda tem a mão pesada na hora de tratar as personagens, muitas vezes vistas pelo próprio diretor como "coitadinhas".

P.S.: obrigado ao Roger pela ajuda neste post. Todos os filmes vistos na Mostra, com notas de zero a dez, aqui.


 
online