[f i l m e s d o c h i c o]

31 de mai de 2005

O filme do mês?



Melhor do que os filmes do Tim Burton? É o que dizem alguns sortudos que viram o longa de Christopher Nolan numa pré-estréia para jornalistas no Japão. Bem, Michael Keaton era um Bruce Wayne deslocado mesmo, mas a idéia de um mentor me incomoda um pouco. A seleção de elenco é bem legal: Gary Oldman, Ken Watanabe e Michale Caine. Christian Bale pode provar que cresceu (Psicopata Americano não vale). Batman, embora eu seja dos discípulos do Superman, é personagem mais complexo entre os grandes nomes da DC Comics. A idéia parece ser manter esta mística. Isso já é uma redenção depois dos carros alegóricos de Joel Schumacher.

Dia 17.

A propósito, tem enquete nova no pop-up: qual é o melhor vilão dos filmes do Batman?

30 de mai de 2005

Cinema doméstico



Crimes em Wonderland começa até bem, inventivo na linguagem, mas depois se perde na própria brincadeira, no exagero na manipulação da câmera e na montagem espertinha. Existe um clima nostálgico, muito bem escorado na trilha sonora do Cliff Martinez, completamente retrô, e na seleção de belos espécimes do rock?n?roll. Do elenco, o Dylan McDermott me supreendeu, bom ator. Mas existem bons momentos da Kate Bosworth, nossa nova Lois Lane, e do Josh Lucas, raivoso.



A versão de 1931 de O Médico e o Monstro pode até não ser um grande filme, mas imprime ao Mr. Hyde uma amoralidade tão complexa que sepulta certas ingenuidades em sua construção e maquiagem datada, que não assusta mais. Rouben Mamoulian acerta porque transforma Fredric March num descarado, completamente livre de convenções sociais. O ator ganhou até o Oscar. O filme também é corajoso, fazendo as transformações em frente às câmeras, num trabalho ousado do fotógrafo Karl Struss.



E para minha surpresa, Quero Ser John Makovich resistiu bem a uma revisão, cinco anos depois. Catherine Keener ainda está maravilhosa e Charlie Kaufman (ou seria Spike Jonze?) tem o mérito de dar consistência ao absurdo do texto. A brincadeira não envelheceu. Pela primeira vez, percebi melhor a belíssima trilha do Carter Burwell, que tem o tom exato do filme, dispersa, etérea, away. Eu sei que muita gente acha que a grande cena do filme é o "Malkovich, Malkovich", mas a minha favorita continua sendo o flashback do chimpanzé.

29 de mai de 2005

Dia 12.
Gosto dos Outros.
Filipe Furtado.


E a Liga dos Blogues Cinematográficos, que agora tem a honra de ter como membro o cineasta Carlos Reichenbach, começou a analisar os pedidos de novos integrantes. Saiba tudo aqui.

27 de mai de 2005

Resultado da enquete:
Qual o melhor filme de Woody Allen?



20,00% Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977) (10 votos)
18,00% Manhattan (1979) (9 votos)
12,00% A Rosa Púrpura do Cairo (1985) (6 votos)
12,00% Desconstruindo Harry (1987) (6 votos)
10,00% Hannah e suas Irmãs (1986) (5 votos)
10,00% Zelig (1983) (5 votos)
6,00% Memórias (1980) (3 votos)
2,00% Interiores (1978) (1 voto)
2,00% Broadway Danny Rose (1984) (1 voto)
2,00% A Era do Rádio (1987) (1 voto)
2,00% A Outra (1988) (1 voto)
2,00% Tiros na Broadway (1994) (1 voto)
2,00% Todos Dizem Eu Te Amo (1996) (1 voto)

filmes sem votos: Um Assaltante Bem Trapalhão (1969), Tudo o que Você Sempre Quis Saber sobre Sexo, Maridos e Esposas (1992), Poderosa Afrodite (1995), Poucas e Boas (1999), Dirigindo no Escuro (2002) e Igual a Tudo na Vida (2003).

Total: 50 votos

24 de mai de 2005

Grande Prêmio do Cinema Brasileiro 2004

A versão brasileira do Oscar vai ser entregue esta noite no Rio de Janeiro. Entre as grandes injustiças: não dar nenhuma indicação para Filme de Amor, de Júlio Bressane, e de deixar Silvia Lourenço de fora da disputa como atriz coadjuvante.



filme de ficção

Cazuza - O Tempo Não Pára, de Sandra Werneck e Walter Carvalho
Contra Todos, de Roberto Moreira
Narradores de Javé, de Eliane Caffé
O Outro Lado da Rua, de Marcos Bernstein
Redentor, de Cláudio Torres

documentário

Entreatos, de João Moreira Salles
Fala Tu, de Guilherme Coelho
Língua - Vidas em Português, de Victor Lopes
Peões, de Eduardo Coutinho
O Prisioneiro da Grade de Ferro, de Paulo Sacramento

direção

Cláudio Torres, por Redentor
Eduardo Coutinho, por Peões
Eliane Caffé, por Narradores de Javé
João Moreira Salles, por Entreatos
Roberto Moreira, por Contra Todos

atriz

Camila Morgado, por Olga
Cleo Pires, por Benjamim
Fernanda Montenegro, por O Outro Lado da Rua
Leona Cavalli, por Contra Todos
Myriam Muniz, por Nina

ator

Ailton Graça, por Contra Todos
Caco Ciocler, por Olga
Daniel Oliveira, por Cazuza - O Tempo Não Pára
José Dummont, por Narradores de Javé
Lázaro Ramos, por Meu Tio Matou um Cara
Paulo José, por Benjamim
Raul Cortez, por O Outro Lado da Rua

atriz coadjuvante

Andrea Beltrão, por Cazuza - O Tempo Não Pára
Dira Paes, por Noite de São João
Eliane Giardini, por Olga
Laura Cardoso, por O Outro Lado da Rua
Leandra Leal, por Cazuza - O Tempo Não Pára

ator coadjuvante

Chico Diaz, por Benjamim
Emilio de Mello, por Cazuza - O Tempo Não Pára
Fernando Torres, por Redentor
Gero Camilo, por Narradores de Javé
Nelson Xavier, por Narradores de Javé

fotografia

Hugo Kovensky, por Narradores de Javé
José Roberto Eliezer, por A Dona da História
Ralph Strelow, por Redentor
Ricardo Della Rosa, por Olga
Walter Carvalho, por Cazuza - O Tempo Não Pára

direção de arte

Carla Caffé, por Narradores de Javé
Cláudio Amaral Peixoto, por Cazuza - O Tempo Não Pára
Clóvis Bueno, por A Dona da História
Tiza de Oliveira, por Olga
Tulé Peake, por Redentor

figurino

Bia Salgado, por A Dona da História
Cláudia Kopke, por Cazuza - O Tempo Não Pára
Cris Camargo, por Narradores de Javé
Marcelo Pies, por Benjamim
Paulo Lois, por Olga

maquiagem

Gabi Moraes, por Nina
Guilherme Pereira, por Didi Quer Ser Criança
Juliana Mendes, por Benjamim
Marlene Moura, por Olga
Martin Macias Trujillo, por Redentor

roteiro original

Elena Soárez, Fernanda Torres e Cláudio Torres, por Redentor
Jorge Furtado e Guel Arraes, por Meu Tio Matou um Cara
Luiz Alberto de Abreu e Eliane Caffé, por Narradores de Javé
Marçal Aquino e Heitor Dhalia, por Nina
Marcos Bernstein e Melanie Dimantas, por O Outro Lado da Rua

roteiro adaptado

Fernando Bonassi e Victor Navas, por Cazuza - O Tempo Não Pára
João Falcão, João Emanuel Carneiro e Daniel Filho, por A Dona da História
Jorge Furtado, Glênio Póvoas e Monique Gardenberg, por Benjamim
José Carvalho e Ricardo Pinto e Silva, por Querido Estranho
Rita Buzzar, por Olga

montagem

Daniel Rezende, por Narradores de Javé
Felipe Lacerda, por A Dona da História
Giba Assis Brasil, por Meu Tio Matou um Cara
Sérgio Mekler, por Cazuza - O Tempo Não Pára
Vicente Kubrusly, por Redentor

sonoplastia

André Abujamra, por 1,99 - Um Supermercado que Vende Palavras
Jorge Saldanha, Alessandro Laroca e Armando Torres Júnior, por Olga
Jorge Saldanha, Valdir Xavier e Rodrigo Noronha, por O Outro Lado da Rua
Mark van der Willigen, Beto Ferraz e Armando Torres Júnior, por Redentor
Zezé D'Alice, Valdir Xavier e Rodrigo Noronha, por Cazuza - O Tempo Não Pára

trilha sonora

André Moraes e Caetano Veloso, por Meu Tio Matou um Cara
Antonio Pinto, por Nina
Arnaldo Antunes e Chico Neves, por Benjamim
DJ Dolores, por Narradores de Javé
Guto Graça Mello, por Cazuza - O Tempo Não Pára

filme estrangeiro

21 Gramas, de Alejandro Iñarritu
Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, de Michel Gondry
Diários de Motocicleta, de Walter Salles
Dogville, de Lars von Trier
Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola

curta-metragem de ficção

Curta-Metragem Metalinguístico de Baixo Orçamento ou Aceita Mais Café?, de Byron O'neil
Formigas, de Verônica Guedes
A História da Eternidade, de Camilo Cavalcante
Último Raio de Sol, de Bruno Torres
O Xadrês das Cores, de Marco Schiavon

curta-metragem documentário

Da Janela do meu Quarto, de Cao Guimarães
A Figueira do Inferno, de Raoni Vale e Ernesto Teodósio
Ninguém Suporta Glória, de Adriano Lírio e Luzius Rueedi
Santa Helena em Os Phantasmas da Botija, de Petrônio Lorena
Senhora Liberdade, de Caco Souza

curta-metragem de animação

Desventuras de um Dia ou a Vida Não é um Comercial de Margarina, de Adriana Meirelles
O Fantasma da Ópera, de Ale Mchaddo
Nave Mãe, de Otto Guerra e Fábio Zimbres
Quando Jorge Foi à Guerra, de Tadao Miaqui
O Vento, de Sávio Leite

se eu votasse:

filme de ficção: Narradores de Javé, de Eliane Caffé
documentário: O Prisioneiro da Grade de Ferro, de Paulo Sacramento
direção: João Moreira Salles, por Entreatos
atriz: Fernanda Montenegro, por O Outro Lado da Rua
ator: Daniel Oliveira, por Cazuza - O Tempo Não Pára
atriz coadjuvante: Laura Cardoso, por O Outro Lado da Rua, pela falta de opção
ator coadjuvante: Gero Camilo, por Narradores de Javé
fotografia: Walter Carvalho, por Cazuza - O Tempo Não Pára
direção de arte: Tulé Peake, por Redentor
figurino: Cláudia Kopke, por Cazuza - O Tempo Não Pára
maquiagem: Martin Macias Trujillo, por Redentor
roteiro original: Luiz Alberto de Abreu e Eliane Caffé, por Narradores de Javé
roteiro adaptado: Fernando Bonassi e Victor Navas, por Cazuza - O Tempo Não Pára, pela falta de opção
montagem: Daniel Rezende, por Narradores de Javé
sonoplastia: Zezé D'Alice, Valdir Xavier e Rodrigo Noronha, por Cazuza - O Tempo Não Pára
trilha sonora: DJ Dolores, por Narradores de Javé
filme estrangeiro: Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola

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Saiba como aqui.

23 de mai de 2005

A comédia de uma vida trágica



Melinda e Melinda guarda muitas semelhanças com o filme anterior de Woody Allen, Igual a Tudo na Vida (2003): sem ser um grande trabalho, é bem escrito, tem boas interpretações e é, sobretudo, bem coerente e fechadinho, enterrando de vez o pobre Dirigindo no Escuro (2002). Allen se apropria do famoso "o que aconteceria se" para brincar com a metalinguagem e desenvolver duas conduções para a história de uma mulher. É curioso perceber que, apesar de conseguir contar com êxito as duas tramas - seguindo linhas dramáticas e cômicas, o que para ele são separadas por uma linha muito tênue - a solução encontrada para a intervenção incomoda depois que as histórias começam a ser trabalhadas. Parecem querer justificar o que não precisa mais de justificativa. Parecem querer apenas revelar o escritor.

Vilmos Zsigmond, como habitual, capricha no manejo da câmera, mesmo que a imagem não seja o foco do filme. Todas as cenas externas ganharam tratamento especial (a conversa entre Hobie e o amigo no parque é a melhor). Radha Mitchell, que vinha do medíocre Em Busca da Terra do Nunca (Marc Foster, 2004), surpreende como as personagens-título, em duas performances boas, a fofa e a neurótica. Ela assume o alter ego de Woody numa das histórias e Will Ferrell, ótimo até o momento em que passa a imitar Allen, assume a vaga na outra. Ao contrário do longa anterior, os coadjuvantes têm vida própria além dos protagonistas, mas o mais interessante do filme talvez seja justamente o fato de que as duas histórias não guardam qualquer relação uma com a outra, mas somente fazem sentido juntas.

MELINDA E MELINDA
Melinda and Melinda, Estados Unidos, 2004.
Direção e Roteiro: Woody Allen.
Elenco: Radha Mitchell, Chloë Sevigny, Amanda Peet, Will Ferrell, Jonny Lee Miller, Chiwetel Ejiofor, Wallace Shawn, Stephanie Roth Haberle, Josh Brolin, Zak Orth, Steve Carell, Andy Borowitz, Brooke Smith, Larry Pine, Matt Servitto, Arija Bareikis, Shalom Harlow, Vinessa Shaw, David Aaron Baker, Christina Kirk, Daniel Sunjata, Geoffrey Nauffts.
Fotografia: Vilmos Zsigmond. Direção de Arte: Santo Loquasto. Montagem: Alisa Lepselter. Figurinos: Judy Huskin Howell. Produção: Letty Aronson. Site Oficial: Melinda e Melinda.

rodapé: aproveitando a deixa, uma nova enquete como pop up desta página: qual o melhor filme de Woody Allen?

nas picapes: I´m Thru with Love, Woody Allen.

22 de mai de 2005

Um conto do deserto



O trailer de Casa de Areia me levou cheio de preconceitos ao cinema. Mas o que parecia um exercício exibicionista intelectualóide, nos moldes de Abril Despedaçado (Walter Salles, 2002), é, em grande parte, um belo filme. Andrucha Waddington, longe das toneladas de filtros que impregnavam Eu Tu Eles (2000), consegue seu trabalho mais cinematográfico, como observaram vários companheiros blogueiros. A câmera do filme é impressionantemente cuidadosa com as dunas, se sustenta mais na composição do que na cor, criando alguns dos quadros mais bonitos do ano. A ausência quase completa de música intensifica a atmosfera ríspida do texto e, curiosamente, não sugere intervenção, mas naturalismo.

A história de perdição de mãe e filha, ainda que costure uma série de referências meio óbvias, não recorre a maneirismos ocos que fazem sucesso em vários dos longas anteriores da Conspiração Filmes. O que há é um cruel baque no ritmo do texto na meia hora final, o que poderia ter sido resolvido com um editor mais presente. No entanto, Fernanda Torres sobrevive intacta à tempestade de areia, bonita (sendo feia) e grande atriz, seja na mulher forte da personagem-mãe ou na encantadora amoralidade da personagem-filha. É seu maior papel. Há quem enxergue apropriações exageradas de Antonioni no filme de Waddington. Eu não. Eu acho que ele finalmente não teve medo de mostrar suas referências e, em meio a alguns bons tropeços, fez um belo filme.

CASA DE AREIA
Casa de Areia, Brasil, 2005.
Direção: Andrucha Waddington.
Roteiro: Elena Soárez, baseado em argumento de Elena Soárez, Luiz Carlos Barreto e Andrucha Waddington.
Elenco: Fernanda Torres, Fernanda Montenegro, Seu Jorge, Luiz Melodia, Stênio Garcia, Ruy Guerra, Emiliano Queiroz, Enrique Diaz, João Acaiabe, Camilla Facundes, Haroldo Costa, Jorge Mautner e Nélson Jacobina.
Fotografia: Ricardo Della Rosa. Direção de Arte: Tulé Peake. Música: Carlo Bartolini e João Barone. Montagem: Sérgio Mekler. Figurinos: Cláudia Kopke. Produção: Leonardo Monteiro de Barros, Pedro Guimarães, Pedro Buarque de Hollanda, Andrucha Waddington, Luiz Carlos Barreto, Lucy Barreto e Walter Salles. Site Oficial: Casa de Areia.

nas picapes: Amor e Restos Humanos, Wado.

Resultado da enquete:
Qual a melhor adaptação de Stephen King?



49,06% O Iluminado (80), de Stanley Kubrick (26 votos)
16,98% Carrie, a Estranha (76), de Brian De Palma (9 votos)
13,21% Um Sonho de Liberdade (94), de Frank Daranbont (7 votos)
9,43% Louca Obsessão (90), de Rob Reiner (5 votos)
5,66% Na Hora da Zona Morta (83), de David Cronenberg (3 votos)
1,89% A Hora do Lobisomem (85), de Daniel Attias (1 voto)
1,89% Conta Comigo (86), de Rob Reiner (1 voto)
1,89% O Aprendiz (1998), de Bryan Singer (1 voto)
zero Cemitério Maldito (87), de Mary Lambert (nenhum voto)
zero A Metade Negra (93), de George A. Romero (nenhum voto)

Total: 53 votos

21 de mai de 2005

Cannes 2005



E os irmãos Dardenne ganharam de novo a Palma de Ouro. Seis anos depois de Rosetta (1999), a dupla leva o prêmio principal do Festival de Cannes. Como eu não vi nenhum dos dois filmes deles - acho O Filho, 2002, incômodo - não sei o resultado foi merecido, mas com certeza não foi uma grande surpresa. Pelo menos, a vitória foi muito melhor do que a do ano passado, quando o Michael Moore e sua apelação levaram o prêmio. O júri do Kusturica ainda lembrou do Jim Jarmusch, outro favorito. Duas premiações para o filme do Tommy Lee Jones depois da sua exclusão sumária da competição pela Câmera de Ouro, o prêmio para os estreantes. O que será que chega para o Festival do Rio e para a Mostra de Sampa?

Palma de Ouro
L'Enfant, de Jean-Pierre e Luc Dardenne (Bélgica)

prêmio especial do júri
Broken Flowers, de Jim Jarmusch (Estados Unidos)

prêmio do júri
Shanghai Dreams, de Wang Xiaoshuai (China)

direção
Michael Haneke, por Hidden (Áustria)

melhor ator
Tommy Lee Jones, The Three Burials of Melquiades Estrada (Estados Unidos)

melhor atriz
Hanna Laslo, Free Zone (Israel)

melhor roteiro
The Three Burials of Melquiades Estrada, Guillermo Arriaga (Estados Unidos)

Câmera de Ouro
Me and You and Everyone We Know, Miranda July (Estados Unidos), e The Forsaken Land, Vimukthi Jayasundara (Sri Lanka)

melhor curta-metragem
Wayfarers, de Igor Strembitskyy (Ucrânia)

Engraçado: no ano passado, assim como hoje, dia do resultado de Cannes, era dia de plantão.

18 de mai de 2005

Escrito nas estrelas



Há muito tempo, numa década muito distante, os anos 70, um homem chamado George Lucas mudou para sempre o cinema. Lucas, que até então tinha apenas dois filmes no currículo, não inventou recursos de linguagem, não criou um gênero novo, não brincou com a estrutura dos filmes. A transformação do cinema com George Lucas foi a do campo da imaginação. O cineasta resgatou personagens e histórias mitológicas e as deslocou para o mais misterioso e instigante dos tempos: o futuro. Lá, redesenhou as lendas, entre a magia e a tecnologia. Criou o maior épico do cinema moderno.

Uma Nova Esperança, de 1977, que é mais conhecido pelos brasileiros como Guerra nas Estrelas, inaugurou um universo lúdico, físico, conceitual, que devolveu uma certa inocência ao cinema. A essência da obra do cineasta é o da criatividade e não exatamente o da invenção. George Lucas é muito mais um grande criador do que um bom cineasta, tanto que os dois filmes que completam a trilogia original, ambos assinados por outras pessoas, são melhor dirigidos do que o longa que inaugura a série.

A vastidão de sua criação e as limitações da época fizeram Lucas podar sua obra. Mas isso todo mundo já sabe. Quando retomou sua saga, em 1999, o criador reassumiu o posto de diretor e os dois filmes que inauguram a epopéia cósmica saíram mais fracos que o esperado. A falta de mão de vinte e três anos sem dirigir um filme resultou em filmes pouco concentrados, dispersos e até relapsos. Em compensação, houve uma evolução. Ataque dos Clones, de 2002, é melhor do que A Ameaça Fantasma, de três anos antes. Mas os dois ficam anos-luz dos três longas originais.

A expectativa em torno de A Vingança dos Sith era justamente em como o filme conseguiria recuperar o fôlego da primeira trilogia. E o longa que encerra - ou ainda, que completa - a saga é melhor que a encomenda. Com o filme, Lucas não só retoma o componente mágico que parecia ter sido diluído, como reinventa a "grande aventura", apesar de uma preocupação excessiva com a ação. Essa recuperação épica é tão bem conduzida que mesmo a canastrice de Hayden Christensen cabe perfeitamente à personagem.

Um incontestável mérito do filme é o de trabalhar com inteligência a partir do óbvio. Nada é tão fácil. Todas as decisões têm prismas diversos. Anakin Skywalker não abraçou o lado negro da força apenas porque tinha essa propensão maligna. A primeira frase de Darth Vader, o maior dos vilões, é bem pontual neste sentido. E o amor também gera o mal. Mesmo a personagem de Ian McDiarmid ganha contornos que multiplicam suas leituras. E os jedis não são tão perfeitos assim. Lucas faz heróis falíveis. E isso encanta.

Ewan McGregor, a partir da metade do filme, tem uma virada completa na sua interpretação, ganhando ares que remetem imediatamente ao Obi-Wan Kenobi de Alec Guiness. São deles muitas das melhores cenas de A Vingança dos Sith, como o diálogo com Padmé e a luta final entre os mais famosos cavaleiros jedi. Quando chega próximo ao final, o filme se aproxima tão perigosamente dos primeiros longas que é impossível não se envolver emocionalmente. Lucas liga os pontos, preenche as lacunas, assume suas referências e, em meio a alguns tropeços, vira grande diretor. Bom mesmo. Domina com firmeza suas crias, crias que deixou para a História.

STAR WARS: EPISÓDIO III - A VINGANÇA DOS SITH
Star Wars: Episode III - Revenge of the Sith, Estados Unidos, 2005.
Direção e Roteiro: George Lucas.
Elenco: Ewan McGregor, Natalie Portman, Hayden Christensen, Ian McDiarmid, Samuel L. Jackson, Jimmy Smits, Frank Oz, Anthony Daniels, Christopher Lee, Keisha Castle-Hughes, Silas Carson, Jay Laga'aia, Bruce Spence, Wayne Pygram, Temuera Morrison, David Bowers, Oliver Ford Davies, Ahmed Best, Rohan Nichol, Jeremy Bulloch, Amanda Lucas, Kenny Baker, Matt Sloan, Peter Mayhew, Rena Owen, Scott Hinds, Peter Jackson, James Earl Jones, John Knoll, George Lucas.
Fotografia: David Tattersall. Direção de Arte: Gavin Bocquet. Música: John Williams (com Stephen Barton). Montagem: Roger Barton e Ben Burtt. Figurinos: Trisha Biggar. Produção: Rick McCallum. Site Oficial: Star Wars: Episódio III - A Vingança dos Sith.

nas picapes: As Time Goes By, The Rolling Stones.

16 de mai de 2005

Qual o melhor filme baseado numa história de Stephen King?
A enquete está no pop-up que abre com este blogue.
Vote consciente.

Longa jornada deserto adentro



Sobre a direção: a idéia, óbvio, é repetir os êxitos de Gladiador (2000), que é um filme bom, mas aqui falta textura, falta acreditar. Parece mais como o vácuo de Tróia (Wolfgang Petersen, 2004). Tá, tem aquele clima historicozinho interessante, mas tudo é muito oco.

Sobre Orlando Bloom: realmente é admirável a coragem de chamar um ator tão ruim para o papel. Ele, provavelmente, estava bem na trilogia do Anel porque não tinha que abrir a boca. Sem o perucão loiro e o arco e flecha, não sobra muita coisa.

Sobre os coadjuvantes: a moça não diz a que veio (ou ela só veio para mostrar os belos olhos e a bela boca?), Jeremy Irons não tem muita função assim como David Thewlis. Já o Liam Neeson, que está ok, se especializou em pai de herói, né? Os árabes, muito politicamente corretos porque ninguém quer mais guerra nenhuma, são os mais legais.

Sobre a concepção visual: é, tem aquela fotografia azulada que está na moda. Deve ser louvada a utilização dos efeitos visuais, que não é excessiva. E a direção de arte cumpre a obrigação de ser eficiente. Os figurinos só são mais legais na mocinha e nos exércitos. Tudo bem que Hollywood quer mostrar que os árabes vestem um monte de panos, mas no iraniano Gabbeh (Mohsen Makhmalbaf, 1996) eles eram bem mais coloridos.

Sobre a religião: é meio patético querer, sempre que aparece uma oportunidade, se mostrar ateu, agnóstico ou dar umas patadas na Igreja Católica. Hoje em dia isso parece tão fácil que as frases de Orlando Bloom soam ingênuas.

Sobre a duração: quando o filme é bom, não há o que reclamar. Mas assistir este aqui até o final é meio torturante para alguém mais espertinho.

CRUZADA
Kingdom of Heaven, Estados Unidos, 2004.
Direção e Produção: Ridley Scott.
Roteiro: William Monahan.
Elenco: Orlando Bloom, Liam Neeson, Jeremy Irons, Eva Green, Marton Csokas, Brendan Gleeson, Jon Finch, Edward Norton, Ghassan Massoud, Alexander Siddig, Khaled El Nabaoui, David Thewlis, Michael Sheen, Nathalie Cox, Iain Glen.
Fotografia: John Mathieson. Direção de Arte: Arthur Max. Música: Harry Gregson-Williams (com Stephen Barton). Montagem: Dody Dorn. Figurinos: Janty Yates. Site Oficial: Cruzada.

nas picapes: Flash Gordon (theme), Queen.

15 de mai de 2005

Entre quatro paredes



Espanglês é, em sua essência, uma comédia. A intenção inicial é fazer rir, motivo banal, mas nem por isso menor. Mas James L. Brooks é um diretor de melodramas. Seu filme mais famoso, Laços de Ternura (1983), virou referência para o que se entende por este gênero. Então, a marca do cineasta torna o filme mais abrangente. Espanglês é, também, um pequeno melodrama. Há modelos clássicos: marido em busca da felicidade, esposa em busca de sentido, filha fora dos padrões estéticos, avó que vive do passado, empregada latina sexy e íntegra. Todos num caldeirão onde a pimenta veio na dose errada.

Primeiro, é meio triste ver a belezura da Paz Vega, tão bem em Lucia e o Sexo (Julio Medem, 2001), recorrendo a todo o histrionismo caricato tão caro às personagens latinas em Hollywood. Italianas, mexicanas, espanholas, brasileiras. Todos são lindas, gostosas e com um ritmo meio acelerado, furiosas. É assim que as moças latinas parecem nos Estados Unidos. O modelo aqui não muda uma vírgula e é este o maior problema do filme, que até consegue costurar bem os pequenos dramas das outras personagens. A que coube a Téa Leoni, por exemplo, tem um tratamento interessante do roteiro, apesar da interpretação da atriz também pender para a histeria.

Como tem um certo talento para explorar o que acontece do lado de dentro das casa, Brooks surpreende com essa ou aquela frase, com algumas brincadeiras no texto, com a pequena (e divertida) participação de Cloris Leachman ou com o tom melancólico de Adam Sandler, que é o mais sóbrio em cena. O que ele não consegue é arrendondar seu filme. A construção parece equivocada desde a abertura, com a narração em off se fazendo lembrar a todo momento, até o encerramento estranho, que parece apenas cumprir a missão imaginária obrigatória de um desfecho.



A Outra Face da Raiva guarda pequenos acertos e muitos desacertos. O clima de pequena história é agradável, mas a vocação anunciada de filme indie se perde em algum lugar. É curioso ver Kevin Costner como um loser tipicamente norte-americano, barrigudo, vivendo de pequenos golpes de marketing apoiado no passado de glórias esportivas. Costner, apesar de suas limitações, se encaixa bem no papel e faz um contraponto interessante com a personagem de Joan Allen, esta sim boa atriz, prejudicada pelo tom excessivo imposto pelo texto para justificar a premissa do filme.

A idéia de elaborar um roteiro a partir de algo como "tudo isso por tão pouco, ou quase nada" é boa, mas o diretor Mike Binder comete alguns erros fatais. O primeiro é criar tantos personagens secundários e não desenvolver nenhum deles. Entre as quatro filhas de Joan estão as ex-revelações Erika Christensen, numa participação tão inexpressiva que me fez querer rever se sua bela performance em Traffic (Steven Soderbergh, 2000) era tão bela assim, e Evan Rachel Wood, de Aos Treze (Catherine Hardwicke, 2003), num papel que se pretende como narrador da história, mas que - assim como em Espanglês - não consegue se solidificar. Talvez seu amigo (e ideal amoroso) seja o mais bem desenvolvido, na intensidade que o tamanho do papel impõe.

Mas o que realmente estraga o filme, que tem um bela trilha de Alexander Desplat e algumas belas canções que eu não consigo achar em lugar nenhum, é a imbecil participação do prório diretor como ator. Seu papel, além de completamente dispensável, é tão arrogantemente espalhado por diversos trechos da trama que não deixa dúvidas de suas intenções exibicionistas. O humor sem graça de sua performance rende apenas um momento realmente bom: o final da cena da sopa.

ESPANGLÊS
Spanglish, Estados Unidos, 2004.
Direção e Roteiro: James L. Brooks.
Elenco: Paz Vega, Adam Sandler, Téa Leoni, Cloris Leachman, Shelbie Bruce, Sarah Steele, Ian Hyland, Victoria Luna, Cecilia Suárez.
Fotografia: John Seale. Direção de Arte: Ida Random. Música: Hans Zimmer (com Trevor Morris e Heitor Pereira). Montagem: Terel Gibson e Richard Marks (com Tia Nolan). Figurinos: Louise Mingenbach. Produção Julie Ansell, James L. Brooks e Richard Sakai. Site Oficial: Espanglês.

A OUTRA FACE DA RAIVA
The Upside of Anger, Estados Unidos/Alemanha/Grã-Bretanha, 2004.
Direção e Roteiro: Mike Binder.
Elenco: Joan Allen, Kevin Costner, Erika Christensen, Evan Rachel Wood, Keri Russell, Alicia Witt, Mike Binder, Tom Harper, Dane Christensen, Danny Webb, Magdalena Manville, Suzanne Bertish.
Fotografia: Richard Greatrex. Direção de Arte: Chris Roope. Música: Alexandre Desplat. Montagem: Steve Edwards e Robin Sales.. Figurinos: Deborah Scott. Produção Jack Binder, Alex Gartner e Sammy Lee. Site Oficial: A Outra Face da Raiva.

rodapé:
UM TIRO NA NOITE , de Brian De Palma.
A genialidade deste filme está por toda parte. Da trilha à metalinguagem da história. Do tom quase cartunesco de Nancy Allen à deslumbrante concepção visual do diretor de fotografia, Vilmos Zsgimond. Brian De Palma, mais que herdeiro de Hitchcock como insistem em enclausurá-lo, é um diretor que ama cinema, que ama suas possibilidades, que ama contar uma história com todos os truques que lhe são permitidos. Um diretor raro.

nas picapes: Lucky Trumble, de Nancy Wilson.

O ranking de abril está no ar no blogue da liga.

12 de mai de 2005

Gosto dos Outros: Sérgio Alpendre
"meus 10 mais (ou alguns filmes que me deixaram com a perna bamba)"



1 Faces (idem, 1968), de John Cassavetes.

O inacreditável humano. Suas inseguranças, suas dúvidas. Sua incapacidade de ser totalmente autêntico, bem como de ser totalmente esquivo e dissimulado. A vulnerabilidade como trunfo, o olhar como sinal de respeito ou interrogação, como tentativa de aceitar o melhor e o pior de cada pessoa. A dificuldade de diálogo, a necessidade de se mostrar atento às fraquezas do outro. Poucos filmes falam tanto sendo tão incompletos. Toda a beleza da vida parece estar em cada fotograma de Faces, um filme imensurável.

2 Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950), de Billy Wilder.

Wilder no auge de seu cinismo crítico. E aqui o alvo é a mesma Hollywood que o projetou. Mas também, a dependência de uma pessoa à outra. Os caminhos que levam a essa insegurança, que às vezes disfarça-se numa sensação de onipotência enganosa, pois tudo pode ruir em alguns segundos. Gloria Swanson se dirigindo à câmera continua sendo uma das cenas mais acachapantes do cinema.

3 O Anjo Exterminador (El Angel Exterminador, 1962), de Luis Buñuel.

De cara, uma das obras mais desconcertantes que vi. Buñuel mandando o bom senso às favas. Depois do choque, impressiona o trabalho formal do filme, com enquadramentos absolutamente geniais (sem querer sê-los), e movimentos discretos e reveladores de câmera.

4 Dois Destinos (Cronaca Familiare, 1962), de Valerio Zurlini.

Encontros e desencontros em sépia, cortesia do mágico Giuseppe Rotunno. Zurlini sensibiliza mostrando o que mantém um ser humano ligado a outro. Mastroianni brilha como o homem que recebe a notícia de que seu irmão está à beira da morte. Cenas de seu passado com ele e a avó invadem sua mente, enquanto ele mesmo, em seu íntimo, luta para tocar a vida. Se o choro não vem durante a projeção, certamente virá quando Mastroianni disser: "prefiro lembrar de você com saúde".

5 O Leopardo (Il Gattopardo, 1963), de Luchino Visconti.

A decadência da aristocracia com a riqueza de detalhes típica de Visconti. Como o filme já foi comentado pelo Peerre, mudo o foco para o grande Giuseppe Rotunno (de novo), talvez o melhor diretor de fotografia de todos os tempos. Há beleza, sim, em seus trabalhos. Por vezes uma beleza quase hipnotizante. Mas nunca deslocada, nunca deixando de contribuir para o filme. Ele consegue ser barroco e funcional ao mesmo tempo. O cinegrafista perfeito para um filme como O Leopardo. Onde há suor e brilho, sedas e poeiras. O mais belo e o mais podre.

6 Bunny Lake is Missing (1965), de Otto Preminger.

O desejo de entender o seu tempo, de não ser atropelado pelos sentimentos. Ao mesmo tempo, uma exploração das possibilidades do cinemascope (como, aliás, vários filmes de Preminger). A participação dos Zombies, tocando num aparelho de tv de um pub, e observados com interesse por Laurence Olivier, diz muito sobre a operação realizada pelo filme. Se o rock estava perdendo, definitivamente, sua inocência, nós espectadores somos colocados num clima misterioso, onde o que é ou não real está encoberto pelas mudanças cada vez mais apressadas da sociedade. Filme datado, e ao mesmo tempo, apropriado a qualquer época.

7 Roleta Chinesa (Chinesisches Roulette, 1976), de Rainer Werner Fassbinder.

Talvez o melhor registro sobre jogos de olhares de que tenho notícia. O olhar como arma e como maneira de se desnudar. Um jogo cruel e fascinante proposto por Fassbinder, observador perspicaz da natureza humana. Ele consegue ficar a um passo do abominável, do abjeto, e sair ileso, no alto de sua habilidade como encenador. O filme ainda tem o melhor trabalho musical de Peer Raben no cinema.

8 Fellini Oito e Meio (Fellini Otto e Mezzo, 1963), de Federico Fellini.

As fronteiras do plano real com o onírico são definitivamente rompidas nesta obra-prima sobre a criação artística. Com este filme, Fellini iniciaria uma nova fase em sua obra. Foram-se os painéis sociais, chegam os dilemas mais profundos da mente humana (por extensão aos da mente dele próprio). Não deixa de ser um painel, claro. É o estilo do diretor. Mas é um painel intimista, auto-centrado, o que desagradaria muitos críticos daí pra frente. Recusar a deliciosa loucura visual e sensorial de seu cinema me parece, no entanto, sinal de miopia e desconcentração.

9 A Esposa Solitária (Charulata, 1964), de Satyajit Ray.

Entre Renoir e Visconti, as influências confessas do diretor, dá pra perceber um mundo pessoal e extremamente criativo no cinema de Ray. Em Charulata, momento inacreditável de poesia cinematográfica, Ray consegue o absurdo de fazer com que a câmera balance com a esposa, pule com o primo, congele com uma reconciliação. Tudo isso sem ser, em momento algum, piegas ou infame. De um diretor que consegue filmar com perfeição a inspiração de um poema se pode esperar o melhor.

10 Vale Abrãao (idem, 1993), de Manoel de Oliveira.

A única adaptação bem-sucedida de Madame Bovary é, de fato, uma das maiores obras do cinema pela habilidade de Manoel de Oliveira em evitar o que o romance de Flaubert tem de infilmável, optando por um tratamento crítico, questionador, que guarda muito pouca semelhança com as outras adaptações. Existem críticos que dizem que o pouco que há de Flaubert no filme vem da piada final, visual e inenarrável. Talvez. Como vi o filme apenas uma vez, mal conseguindo andar após a sessão, aguardo a revisão na próxima Mostra de Cinema de São Paulo, onde foi prometida uma retrospectiva bem abrangente do mestre.

Menções honrosas necessárias a outros filmes da minha vida:

Cassino (Martin Scorsese), Pierrot le Fou (Godard), O Testamento do Dr. Mabuse (Fritz Lang), Rastros de Ódio (John Ford), À Sombra de uma Dúvida (Hitchcock), O Sétimo Selo (Bergman), O Ano Passado em Marienbad (Resnais), Recordações da Casa Amarela (João Cesar Monteiro), Harakiri (Kobayashi), O Rio dos Vagalumes (Sugawa).



microentrevista

Por que ter um blogue de cinema?

No meu caso para praticar a escrita mesmo. Além da oportunidade de fazer novos amigos (por incrível que pareça, a maior parte dos leitores do blogue, participantes ou não), gosto da possibilidade de tentar escrever no menor tempo possível o que penso sobre um filme ou diretor. Às vezes sou leviano, mas é o preço a pagar pela informalidadee pela pressa.

Qual seu cineasta infalível?

Tem tantos, mas o que engatou a maior sequência de grandes filmes nos últimos tempos foi Manoel de Oliveira.

Vale tudo para ver um filme (cópia pirata, filme no computador,
versão sem legendas ou de má qualidade, etc.)?


Eu não gosto de ver filmes em condições precárias. Tenho cópias péssimas de filmes que quis ver a vida inteira (ex: A Mamãe e a Puta, de Jean Eustache), mas fico sempre com preguiça de ver, aguardando uma cópia melhor. Da mesma forma que detesto ver filmes com formato errado (pan scan no lugar de widescreen, ou outras deformações).

Texto, câmera, interpretações, montagem. Qual seu primeiro interesse num filme?

A câmera, seguida de muito perto pela montagem. Posicionamento e movimento (ou não) de câmera é muito importante para a apreensão do filme. E a maneira que o diretor encontra pra passar de um plano para outro sempre atrai minha atenção. O corte certo é essencial.

Quem tem o melhor texto sobre cinema?

No Brasil continua sendo o Inácio Araújo, com alguns colegas da Contracampo correndo por fora. Lá fora, Kent Jones e Chris Fujiwara. Gosto muito do pouco que li do Serge Kaganski também.



Sérgio Alpendre, 36 anos, louco por filmes desde a primeira infância, mas cinéfilo que se preze desde 1990, quando descobriu O Anjo Exterminador, de Buñuel. Escreve para a Contracampo, e iniciou em 2004 o blogue Chip Hazard.

11 de mai de 2005

Nasce um monstro



Na década de 50, a Universal inaugurou uma nova série de monstros. Os estúdios que deram vida a Drácula e Frankenstein, para ficar apenas nos mais famosos, queriam reciclar seu cartel de criaturas, criando seres que assustassem mais o público "moderno". O monstro escolhido para estrear essa nova fase veio justamente do Brasil. A história de O Monstro da Lagoa Negra se passa no meio da Amazônia e, apesar de nenhum integrante da equipe do filme ter pisado em solo brasileiro, o longa revela um cuidado com a verossimilhança bem grande, quase exagerado.

O texto procura demonstrar rigor científico na identificação de espécies, na relativamente bem sucedida escolha das locações (os pântanos da Flórida parecem muito os pântanos da Flórida), no acompanhamento das pesquisas. Muita coisa ficou velha no filme, mas a essência, cinqüenta anos depois, é a de uma obra moderna. Provavelmente quem mais contribuiu para isso foi o diretor escolhido para comandar O Monstro da Lagoa Negra. Jack Arnold, um dos mais geniais autores dos filmes b que o cinema já teve, era um autor sempre atento a sua época.

No esforço para dar credibilidade à história que contava, Arnold fez um filme de respeito, que revela um homem muito apaixonado por sua profissão. E a paixão saiu melhor que a encomenda porque, mesmo com um elenco medíocre, Arnold conseguiu um apuro estético de causar inveja até a filmes modernos. A qualidade da fotografia subaquática realmente impressiona: além de eficiência para mostrar o "underwater", consegue criar imagens muito bonitas, quase poéticas. Jack Arnold, que três anos depois faria a obra-prima O Incrível Homem que Encolheu, imprime ecos de King King (Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack, 1933) a seu filme, o que dá mais uma dimensão à história. Um filme literalmente fantástico.

O MONSTRO DA LAGOA NEGRA
Creature of the Black Lagoon, Estados Unidos, 1954.
Direção: Jack Arnold.
Roteiro: Harry Essex, a partir da história de Arthur A. Ross e Maurice Zimm.
Elenco: Richard Carlson, Julia Adams, Richard Denning, Antonio Moreno, Nestor Paiva, Whit Bissell, Bernie Gozier, Henry A. Escalante, Ricou Browning, Ben Chapman, Perry Lopez, Sydney Mason, Rodd Redwing.
Fotografia: Willaim E. Snyder. Direção de Arte: Hilyard Brown e Bernard Herzbrun. Música: Henry Mancini, Herman Stein e Hans J. Salter (todos sem crédito). Montagem: Ted J. Kent. Figurinos: Rosemary Odell. Produção: William Alland.

rodapé: este filme faz parte de uma coleção de DVDs que resgata os maiores filmes de monstros da Universal. Numa muito bem-vinda promoção, terminei comprando seis títulos deste catálogo.

nas picapes: Build (po-po-papel), Housemartins.

6 de mai de 2005

Bastidores do fim de uma guerra



Taí um filme difícil de se falar sem chover no molhado. Apesar de um certo exagero de algumas publicações que enxergaram aqui uma obra-prima, não há muito como escapar dos elogios à performance de Bruno Ganz e ao tratamento dado a Hitler, provavelmente a menos idealizada versão do comandante do III Reich. A caracterização do líder ariano é impressionante nos trejeitos e na mistura de uma educação irretocável com uma fúria explosiva. Hitler parece mais que real do que nunca.

Mas nem só de Bruno Ganz vive o filme de Olivier Hirschbiegel, que cria uma bela teia de relacionamentos para tecer os momentos finais do império alemão. As mais de duas horas e meia de filme servem para trabalhar personagens com grande ou menor valor histórico, dando uma dimensão rara à cúpula do nacional-socialismo. Hirschbiegel divide a ação entre personagens comuns, como a secretária do füher ou o menino-soldado, e personagens históricos, entre eles os principais oficiais, ministros e assessores de Hitler.

A composição de Magda Goebbels, que tem uma das cenas-solo mais fortes do filme (ainda que bastante calculada para ter tal efeito), garante a melhor performance feminina, embora a mesma Julianne Köhler de Lugar Nenhum na África (2002) esteja muito bem como a controversa Eva Braun - personagem que, por sinal, já tinha ganho uma excelente interpretação de Elena Rufanova no Moloch (1999) de Aleksandr Sokúrov. Köhler e o tom de desacerto que impõe a sua Eva combinam com a própria construção do filme, que toma emprestado o caos do governo decadente.

Talvez seja essa a maior qualidade do longa: mostrar que aquela Alemanha era Hitler e que, o fim dele foi o fim daquela Alemanha. Nesse sentido, Ganz consegue transitar com extrema facilidade entre o homem comum e o líder conquistador que "inventou" aquele país, que impôs aquela mentalidade, que inspirou uma história bem cruel. E não retratar Hitler como apenas mais um vilão é uma decisão corajosa e acertada. Racismo e intolerância estão lado de sorrisos e lágrimas. Ganz preenche tantas lacunas, está tão integrado a todos os prismas por onde o führer pode ser visto que provoca até alguma identificação. Ousado ou oportunista?

A QUEDA! AS ÚLTIMAS HORAS DE HITLER
Der Untertang/Downfall, Alemanha/Itália/Áustria, 2004.
Direção: Oliver Hirschbiegel.
Roteiro: Bernd Eichinger, baseado nos livros de Joachim Fest e de Melissa Müller e Traudl Junge.
Elenco: Bruno Ganz, Alexandra Maria Lara, Corinna Harfouch, Ulrich Matthes, Juliane Köhler, Heino Ferch, Christian Berkel, Matthias Habich, Thomas Kretschmann, Michael Mendl, André Hennicke, Ulrich Noethen, Birgit Minichmayr, Rolf Kanies, Justus von Dohnanyi, Dieter Mann, Christian Redl, Götz Otto.
Fotografia: Rainer Klausmann. Direção de Arte: Bernd Lepel. Música: Stephan Zacharias. Montagem: Hans Funck. Figurinos: Claudia Bobsin. Produção Bernd Eichinger. Site Oficial: A Queda! As Últimas Horas de Hitler.

rodapé: segundo a distribuidora brasileira (esforçada, com um megalançamento nacional) o filme concorreu ao Oscar de melhor filme "extrangeiro" (sic).

nas picapes: We Live Again, Beck.

5 de mai de 2005

Resultado da enquete:
Qual o melhor filme brasileiro de 2004?



Entreatos, de João Moreira Salles (17,31%) (9 votos)
O Prisioneiro da Grade de Ferro, de Paulo Sacramento (17,31%) (9 votos)
Olga, de Jayme Monjardim (15,38%) (8 votos)
Cazuza, de Walter Carvalho e Sandra Werneck (11,54%) (6 votos)
Redentor, de Cláudio Torres (7,69%) (4 votos)
Filme de Amor, de Julio Bressane (5,77%) (3 votos)
Nina, de Heitor Dhalia (5,77%) (3 votos)
O Outro Lado da Rua, de Marcos Bernstein (5,77%) (3 votos)
Cama de Gato, de Alexandre Stockler (3,85%) (2 votos)
Garotas do ABC, de Carlos Reichenbach (3,85%) (2 votos)
Narradores de Javé, de Eliane Caffé (3,85%) (2 votos)
Contra Todos, de Roberto Moreira (1,92%) (1 voto)
De Passagem, de Ricardo Elias (nenhum voto)
Meu Tio Matou um Cara, de Jorge Furtado (nenhum voto)
Peões, de Eduardo Coutinho (nenhum voto)

Total: 52 votos.

4 de mai de 2005

Tamanho não é documento



Bill Condon e suas biografias de personagens controversos. Deuses e Monstros já reconstituía com bastante eficácia a vida do cineasta James Whale, diretor de filmes de monstros, gay, homem recluso, estranho. Em Kinsey, o protagonista é o pesquisador que ajudou a modernizar o pensamento sobre sexo, figura polêmica, bissexual, estranha. O primeiro acerto de Condon foi escalar Liam Neeson para o papel. Sua performance não é excepcional, mas sempre está acima da média, o que é perfeito para que a interpretação não chame mais atenção que a personagem.

Outro mérito é o ponto de partida adotado, o de uma das entrevistas que Kinsey e sua equipe fazem com seus pacientes, como se ele mesmo fosse o alvo do inquérito. A partir daí, a narrativa nunca abandona a metalinguagem, a referência ao trabalho que causou tanto barulho. A seqüência que mostra o trajeto da pesquisa por todos os Estados Unidos é curiosamente inteligente e retrô.

Condon soube criar coadjuvantes fortes, mas que não roubam a cena de Liam Neeson. Laura Linney, no papel da esposa-moderninha-porém-porto-seguro, e Peter Sarsgaard, como o assistente que provoca uma pequena revolução sexual na vida de Kinsey, chamam a atenção. Mas o melhor do filme é que ele, de certa forma, assume as falhas de sua personagem. É quando se mostra que a fórmula e a forma como Kinsey conduzia suas pesquisas tinham implicações tão grandes quanto as questões identificadas por ele que o filme de Bill Condon se mostra mais que um eficiente pequeno trabalho; surge importante, real.

KINSEY
Kinsey, Estados Unidos, 2004.
Direção e Roteiro: Bill Condon.
Elenco: Liam Neeson, Laura Linney, Chris O'Donnell, Peter Sarsgaard, Timothy Hutton, John Lithgow, Tim Curry, Oliver Platt, Dylan Baker, Julianne Nicholson, William Sadler, John McMartin, Veronica Cartwright, Kathleen Chalfant, Heather Goldenhersh, Dagmara Dominczyk.
Fotografia: Frederick Elmes. Direção de Arte: Richard Sherman. Música: Carter Burwell. Montagem: Virginia Katz. Figurinos: Bruce Finlayson. Produção Gail Mutrux. Site Oficial: Kinsey.

nas picapes: Canceled Check, Beck.

Vingança nos bastidores



Tem gente que não sabe o que tem nas mãos. O trailer, a divulgação, tudo relacionado a Adorável Júlia, filme do irregular István Szabó, indicava que este era mais um daqueles "filmes de atriz", veículos para uma atriz conhecida mostrar que tem talento sem dar espaço para texto, coadjuvantes ou cuidado técnico. Mas os primeiros minutos de projeção revelam exatamente o contrário: é uma das melhores surpresas do ano, presente pequeno a ser descoberto. Baseado numa peça do mesmo autor de O Fio da Navalha, tem um texto afiado, deliciosamente cruel. A amoralidade do filme é um mérito raro. Adorável Júlia não tem vergonha de ter personagens mentirosos, enganadores, egoístas, que, por isso mesmo, ganham uma credibilidade pouco convencional.

O roteiro, apesar de ter vários elementos clássicos, tem intervenções que brincam com a própria linguagem a ponto de se confundir emoções reais da protagonista com suas performances. No entanto, apesar de ter coadjuvantes consistentes e apuro visual, o filme realmente tem uma rainha. A performance de Annette Bening, apoiada numa pequena história de vingança nos bastidores do teatro, talvez seja a melhor de sua carreira. Aqui e ali, ecoa algo de A Malvada (Joseph L. Mankiewicz, 1950), o que é muito bem vindo, mas que não dá o tom á história, como se escreveu por aí. A interpretação de Annette apenas ratifica a injustiça que o Oscar deste ano cometeu ao premiar Hillary Swank, que estava muito boa em Menina de Ouro (Clint Eastwood, 2004), concordo, mas que não chega aos pés do que esta atriz enorme fez neste filme.

ADORÁVEL JÚLIA
Being Julia, Canadá/Estados Unidos/Hungria/Grã-Bretanha, 2004.
Direção: István Szabó.
Roteiro: Ronald Harwood, baseado na peça Theatre, de W. Somerset Maugham.
Elenco: Annette Bening, Jeremy Irons, Michael Gambon, Shaun Evans, Juliet Stevenson, Bruce Greenwood, Miriam Margolyes, Leigh Lawson, Tom Sturridge, Lucy Punch, Rosemary Harris, Rita Tushingham, Maury Chaykin, Tom Sturridge.
Fotografia: Lajos Koltai. Direção de Arte: Luciana Arrighi. Música: Mychael Danna. Montagem: Susan Shipton. Figurinos: John Bloomfield. Produção Robert Lantos. Site Oficial: Adorável Júlia.

nas picapes: Dead Melodies, Beck.

3 de mai de 2005

Álbum de família



Entender um adulto deve ser algo muito complicado para uma criança. Faltam referências, experiência, falta história. No novo filme do japonês Hirokazu Kore-eda, o jovem Akira é jogado numa situação sem saída: cuidar de três irmãos menores é um desafio gigantesco, ainda mais para quem nem chegou à adolescência. Mesmo refém de uma vida transitória, cheia de mudanças, inconstâncias, personagens provisórios, mesmo acostumado a uma mãe para quem nada é muito certo, Akira não entende porque sua mãe foi embora. E o deixou ali, com um problema daqueles.

Mais difícil do que uma criança entender um adulto é um adulto entender uma criança. Porque á medida que o tempo passa, que a idade aumenta, a memória some, a visão de mundo ganha proporções diferentes. É difícil pensar como se pensava antes. Hirokazu Kore-eda se esforça. Não consegue. Mas chega muito próximo de se colocar no lugar de seus pequenos personagens. Akira, que além de cuidar, precisa esconder seus irmãos de um condomínio que não aceita famílias grandes. Então, Akira carrega sua família inteira dentro de si.

É por ela que ele vai ao mercado, que inventa presentes de Natal, que leva a irmãzinha aniversariante para esperar a mãe que nunca vem.

Kore-eda, justamente pelo grau de distanciamento que mantém, evitando as armadilhas fáceis, consegue um apuro na direção invejável: faz um filme duro e extremamente triste, mas livre de cenas apelativas perfeitamente cabíveis dentro do enredo do longa-metragem. Seu filme-denúncia denuncia sem explosão. É a rotina do abandono que provoca reações. É a falta de eventos que incomoda. É não ter um ator-mirim-gênio (tipo Haley Joel Osment ou Keisha Castle-Hughes) que mostra que aquilo ali está mais perto do possível. A performance de Yugi Yagira, nunca espetacular, fria, triste, solitária, é o que mais corta o coração.

NINGUÉM PODE SABER
Dare mo shiranai, Japão, 2004.
Direção, Roteiro, Montagem e Produção Hirokazu Kore-eda.
Elenco: Yûya Yagira, Ayu Kitaura, Hiei Kimura, Momoko Shimizu, Hanae Kan, You, Kazumi Kushida, Yukiko Okamoto, Sei Hiraizumi, Ryo Kase, Yuichi Kimura, Kenichi Endo, Susumu Terajima.
Fotografia: Yutaka Yamasaki. Direção de Arte: Toshihiro Isomi e Keiko Mitsumatsu. Música: Gontiti. Site Oficial: Ninguém Pode Saber .

rodapé: Passem aqui. para conferir o último texto do amigo William Wilson, que conta a história de um homem de vocabulário limitado.

nas picapes: Hey, Pixies.

2 de mai de 2005

Com o perdão da palavra



Com o perdão da palavra, o mundo anda mesmo por caminhos bem tortuosos. É o que diz Manoel de Oliveira em seu penúltimo filme. Habilidoso, o diretor nos convida a acompanhar o cruzeiro de mãe e filha por alguns dos lugares mais importantes da história da Europa e, por conseqüência, do mundo - já que o mundo era a Europa. Numa aventura turístico-histórica que reconstitui guerras, conflitos e disputas de povos e impérios, somos apresentados (ou relembrados) a fatos, datas e personagens que participaram da ascenção e decadência de civilizações.

É quando o cineasta mostra que a história, "a nossa música", se ergueu a partir da violência, da intolerância. Em cada porto, um novo passageiro sobe ao navio onde viaja nossa dupla de protagonistas. Depois de algumas paradas, Oliveira compõe sua releitura da Torre de Babel, com uma mesa onde todos falam - e se entendem - com línguas diferentes. A partir daí, a discussão é que o foco é no mundo de hoje, da União Européia ao reflexos da globalização (talvez a palavra mais feia de todas). Oliveira cobra entendimento entre as pessoas, entre os povos, entre as diferenças. Talvez seja por isso que seu filme tenha um final tão chocante. Para chamar a atenção e dizer que tem algo de errado por aí.

UM FILME FALADO
Um Filme Falado, Portugal/França/Itália, 2003.
Direção e Roteiro: Manoel de Oliveira.
Elenco: Leonor Silveira, Filipa de Almeida, John Malkovich, Catherine Deneuve, Stefania Sandrelli, Irene Papas, Luís Miguel Cintra, Nikos Hatzopoulos.
Fotografia: Emmanuel Machuel. Direção de Arte: Zé Branco. Montagem: Valérie Loiseleux. Figurinos: Isabel Branco. Produção: Paulo Branco. Site Oficial: Um Filme Falado.



rodapé:
A INTÉRPRETE
O filme de Sydney Pollack começa muito bem, mas se confunde em suas reviravoltas que mudam a cada momento o perfil da personagem de Nicole Kidman. Quando ela era uma coisa, a idéia era muito mais interessante. Depois, parece armação de roteiro para chamar a atenção do espectador. Existe uma bela seqüência, a que mostra o depois da explosão: bem dirigida, bem interpretada e bem fotografada. Mas o melhor mesmo é tudo relacionado à performance de Sean Penn. Sua personagem, que entra em cena se recuperando de um trauma, é o mais interessante do filme. E Penn, cada vez mais a cara do Robert De Niro, consegue ser excelente mesmo em cenas quase piegas.

nas picapes: I Just Don't Know What To Do with Myself, de The White Stripes.


 
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