
Um homem e uma missão. Este é Hartigan, policial obstinado a salvar uma garotinha de 11 anos das mãos de um assassino estuprador. Outro homem e outra missão. Marv quer vingar a morte da única mulher que ignorou sua aparência monstruosa. Um terceiro homem, mais uma missão. Dwight precisa evitar que um grupo de prostitutas seja atacada por um bando de malfeitores. A vida tem poucas cores em Basin City, lugar dominado por personagens com um firme propósito: sobreviver. O ambiente criado por Frank Miller reproduz o universo escuro dos filmes noir, onde corrupção, crimes e violência estão intrinsecamente ligados ao que move o dia-a-dia.
Traduzir para o cinema as histórias de Hartigan, Marv e Dwight foi a missão de um quarto homem: Robert Rodriguez. Cineasta extremamente irregular, ele optou pela inverossimilhança para ser o mais fiel possível à obra original. Rodriguez, que dividiu o cargo de diretor com o próprio Miller (e foi expulso do Directors Guild of America por causa disso), decidiu estilizar ao máximo seu filme, artificializando a fotografia em preto-e-branco (estourando a luz, trabalhando com fundos azuis e cenários virtuais, destacando os mínimos elementos coloridos). A tática, acusaram, deixou o filme perigosamente próximo às graphic novels, quase uma prisão formal.
Bobagem. As técnicas usadas por Rodriguez são impressionantes. Capturaram o "movimento" das HQs. Nunca houve um filme que reproduzisse com tanta eficiência e fidelidade a linguagem dos quadrinhos. Revolução, sim. Revolução que não merece o nome de obra-prima, mas revolução. Mas Sin City se dedica a essa preocupação estética com o mesmo empenho com que cuida de suas personagens, todos mergulhados em pequenas crises pessoais e tratados como peões de um mundo noir, ressaltado pela narração em off.
Para condenar a violência, que vem em dose excessiva porque é ela que conduz a história, é preciso um argumento muito bom porque os três protagonistas, ainda que procurem métodos questionáveis, têm motivos justos, que quase sempre esbarram na defesa de inocentes. O mais violento de todos, Marv, ganhou um intérprete apaixonado em Mickey Rourke. Longe de um papel decente havia anos, o ator se entrega completamente ao anti-herói deformado que quer vingar seu único e fugaz amor. É comovente pensar que isso pode ser fruto de uma identificação com a aparência monstruosa do ator. Quem pode ter certeza? Ninguém. Em Sin City, não há muitas verdades.
SIN CITY - A CIDADE DO PECADO

Sin City, Estados Unidos, 2005.
Direção: Robert Rodriguez e Frank Miller.
Roteiro: Frank Miller, baseado em suas graphic novels.
Elenco: Bruce Willis, Mickey Rourke, Jessica Alba, Clive Owen, Nick Stahl, Powers Boothe, Rutger Hauer, Elijah Wood, Rosario Dawson, Benicio Del Toro, Jaime King, Devon Aoki, Brittany Murphy, Michael Clarke Duncan, Carla Gugino, Alexis Bledel, Jesse De Luna, Jude Cicciolella, Tommy Flanagan, Rick Gomez, Nicky Katt, Jason McDonald, Frank Miller, Josh Hartnett, Marley Shelton.
Fotografia e Montagem: Robert Rodriguez. Direção de Arte: Jeanette Scott. Música: John Debney, Graeme Revell e Robert Rodriguez. Produção: Elizabeth Avellan, Frank Miller e Robert Rodriguez. Site Oficial: Sin City. Duração: 126 min.
nas picapes: I'll Be Your Mirror, The Velvet Underground.