[f i l m e s d o c h i c o]

31 de mai de 2004

O DIA DEPOIS DE AMANHÃ

O MUNDO... PERDIDO.

Uma onda gigantesca acaba de levar a minha criatividade para um subtítulo



Existe uma lógica pouco lógica nos filmes-catástrofe. Eles passeiam entre o objetivo de envolver o espectador fazendo-o acreditar que o drama vivido pelos personagens da tela pode também ser o seu e a criação pura e simples de seqüências de ação que proporcionem o deleite com a fantasia. Há mais mistério entre a tragédia e a aventura do que possam supor os criadores destes produtos. O filme-catástrofe fascina, embora muitas vezes seus roteiristas pequem pelo tratamento rarefeito dado aos textos, o que, em quase todas as últimas investidas no gênero, tem resultado em filmes catastróficos.

O Dia Depois de Amanhã, a mais recente (mas não derradeira) tentativa de encher cofres às custas de desastres, coloca o holandês despatriado Roland Emmerich mais uma vez no piloto de uma aventura de proporções planetárias - a última vez foi com o esquecível e, se a gente pensar bem, esquecido Independence Day (96). O roteiro, escrito pelo próprio diretor, mergulha e acelera nas teorias sobre o aquecimento global e o derretimento das calotas polares, o que provoca, você sabe, uma onda de destruição pelo planeta. Justificativa perfeita para os milhões de dólares gastos nos efeitos visuais do filme.

Catástrofe escolhida, pouco a acrescentar. Emmerich saca do bolso a cartilha dos longas do gênero e escolhe seu herói, cercando-o dos coadjuvantes padrão, que preenchem todas as formas (fôrmas e não fórmas) de personagens deste tipo de filme. A primeira hora do filme é reservada para a exibição da tecnologia: ondas gigantes e tornados furiosos deliciosos. Na segunda hora, o que conta é a reprodução da fórmula de missão do protagonista. Tudo muito corretinho, com piadinhas, sacrifícios e mais algumas boas cenas de destruição, com todas aquelas pequenas atrocidades à lógica que a gente perdoa.

Não. Eu não vou discutir a incoerência ética da filmografia o diretor, muito menos compará-lo a ativistas políticos em voga no cinema atual. Também não parece relevante investigar a moda ou a saída politicamente correta de alfinetar os Estados Unidos. Por fim, não vejo problema de ter histórias padrões e personagens clichês se eles cumprem seu papel. Acho bobagem questionar a verossimilhança de qualquer coisa que seja num filme deste tipo. Ou cobrar diálogos mais significativos. Por mais que tente parecer (e ele tenta) um filme engajado, com preocupações sócio-ambientais, O Dia Depois de Amanhã segue com muito prazer, sua sina para o entretenimento. Pena que não morra tanta gente assim...

O DIA DEPOIS DE AMANHÃ
The Day After Tomorrow, EUA, 2004.
Direção: Roland Emmerich.
Roteiro: Roland Emmerich e Jeffrey Nachmanoff.
Elenco: Dennis Quaid, Jake Gyllenhaal, Emmy Rossum, Dash Mihok, Jay O. Sanders, Sela Ward, Austin Nichols, Arjay Smith, Tamlyn Tomita, Sasha Roiz, Ian Holm, Robin Wilcock, Jason Blicker, Kenneth Moskow, Tim Hamaguchi, Glenn Plummer, Adrian Lester, Richard McMillan, Nestor Serrano, Perry King, Mimi Kuzyk.
Fotografia: Ueli Steiger (e Anna Foerster). Montagem: David Brenner. Direção de Arte: Barry Chusid. Música: Harald Kloser (com música adicional de Thomas Wanker.. Figurinos: Renée April. Produção: Roland Emmerich e Mark Gordon.

nas picapes: It's The End Of The World As We Know It (And I Feel Fine), REM.

30 de mai de 2004

TRÓIA

AS INVASÕES BÁRBARAS

O poema de Homero perde a benção divina e vira filme de estrelas



Numa luta de gregos e troianos
Por Helena, a mulher de Menelau
Conta a história que um cavalo de pau
Terminava uma guerra de dez anos
Menelau, o maior dos espartanos
Venceu Páris, o grande sedutor
Humilhando a família de Heitor
Em defesa da honra caprichosa
Mulher nova bonita e carinhosa
Faz o homem gemer sem sentir dor


(Otacílio e Zé Ramalho)

Tirando o fato de que seus protagonistas resolveram tirar férias da arte de interpretar justamente durante a gravação das cenas do filme, Tróia até que tem seus bons momentos. A luta que abre o filme é empolgante, com um salto fatal provavelmente ajudado pelos computadores. Cortesia de Wolfgang Petersen, que já foi muito melhor antes de se entregar à máquina hollywoodiana (O Barco, 82, é um filme excepcional). Nesta megaprodução de batalhas sanguinárias (poderiam ser bem mais pelo que eu li sobre a época), o mais legal mesmo é a ação.

Petersen tenta dar credibilidade ao filme com seus coadjuvantes de luxo. Peter O'Toole, bem desgastado pelo tempo, consegue a melhor cena do filme, quando o rei Príamo vai reclamar pelo corpo do filho morto. Cena que ficaria bem melhor caso Brad Pitt estivesse bem dirigido e disposto a interpretar. Dos protagonistas, apenas Eric Bana está bem. E só. Orlando Bloom é bem fraquinho, mas nesta área perde feio para Diane Kruger. A mulher mais linda do mundo é linda mesmo, mas não tem um sopro de talento dramático. Julie Christie faz uma ponta boba e sem motivo. Brian Cox, no entanto, mesmo caricato com seu Agamenon, dá um banho nos colegas de elenco.

A Ilíada, que ajudou a criar os princípios da cultura grega, foi pro brejo no roteiro "humanizado" do filme, que reserva aos deuses papéis sem rosto na trama: eles só aparecem nas citações, algumas vezes até atéias, dos personagens. Como o poema épico de Homero é a única fonte possível (até hoje) para a história que se vê na tela, dizimar a interferência divina na Guerra de Tróia parece blasfêmia das mais graves. Se nem as divindades resistem à tesoura do mercado, o que dizer do romance entre Aquiles e Pátroclo ou mesmo a duração original da guerra (dez anos que viraram doze dias)? Mesmo assim, Tróia ainda é grande demais para um filme com pouco a dizer.

TRÓIA
Troy, EUA, 2004.
Direção Wolfgang Petersen.
Roteiro: David Benioff, inspirado no poema épico A Ilíada, de Homero.
Elenco: Brad Pitt, Eric Bana, Orlando Bloom, Brian Cox, Brendan Gleeson, Sean Bean, Peter O'Toole, Diane Kruger, Julie Christie, Rose Byrne, Saffron Burrows, Nigel Terry, Tyler Mane, Garrett Hedlund, Jacob Smith, John Shrapnel.
Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Peter Honess. Direção de Arte: Nigel Phelps. Música: James Horner (e a canção Remember Me). Figurinos: Bob Ringwood. Produção: Wolfgang Petersen, Diana Rathbun e Colin Wilson.

nas picapes: Mulher Nova Bonita e Carinhosa Faz o Homem Gemer Sem Sentir Dor, Amelinha.

29 de mai de 2004

SYLVIA

POESIA SEM PAIXÃO

Sylvia não sabe que tom adotar e não chega a lugar nenhum



Problema sério: Gwyneth Paltrow é muito fofa para o papel. É, é verdade, não posso fazer nada. A moça é boa atriz, ao contrário do que a campanha contra que existe no Brasil desde a época de Shakespeare Apaixonado (98) (onde ela está particularmente luminosa) quer propagar. Mas para Sylvia Plath era preciso uma atriz com mais punch, digamos. O filme não é ruim. Até se esforça para não soar reverente demais, o que, opinião pessoal, é impossível numa biografia de um artista mitificado. Mas nunca se desenvolve. Não há explosão na narrativa, o que o deixa curiosamente plácido, mesmo diante da perturbação da personagem. A diretora estreante Christine Jeffs tem pouca habilidade com a condução da história, perde a mão várias vezes e o espectador, aos poucos, o interesse. E a paciência com a trilha sonora eu-sofro-muito de Gabriel Yared. Ainda não foi desta vez. O pior é que Gwyneth agora quer ser Marlene Dietrich. Difícil não acontecer algo parecido.

SYLVIA
Sylvia, Grã-Bretanha, 2003.
Direção: Christine Jeffs.
Roteiro: John Brownlow.
Elenco: Gwyneth Paltrow, Daniel Craig, Jared Harris, Blythe Danner, Michael Gambon, Amira Casar, Andrew Havill, Lucy Davenport, Liddy Holloway, David Birkin, Alison Bruce, Julian Firth, Jeremy Fowlds, Michael Mears.
Fotografia: John Toon. Montagem: Tariq Anwar. Direção de Arte: Maria Djurkovic. Música: Gabriel Yared. Figurinos: Sandy Powell. Produção: Alison Owen.

nas picapes: Bang Bang (My Baby Shoot Me Down), Nancy Sinatra.

25 de mai de 2004

RÁPIDAS ANOTAÇÕES SOBRE TRÊS FILMES SEM PONTOS CONVERGENTES

Ou sobre como é possível criar um subtítulo quando não há unidade nos temas do texto



Hayao Miyazaki é o maior animador do cinema oriental, responsável por filmes que se tornaram clássicos, como o recente A Viagem de Chihiro (02). Seu cinema mistura um elaboradíssimo trabalho de concepção visual com a fantasia épica que habita a mitologia japonesa. Há exatos vinte anos, quando a ecologia ainda não era moda e o planeta não sonhava em discutir seu assassinato, fez um trabalho engajadíssimo a serviço da preservação ambiental, sem perder as características de sua obra. Náusica do Vale dos Ventos mostra a saga da princesa que batiza o filme num mundo devastado pelos efeitos da depredação. Parece burocrático, mas Miyazaki tem uma capacidade única para estruturar uma aventura sobre premissa com que trabalha. Ainda longe da eficiência narrativa de seu último e mais famoso longa, o cineasta esboça aqui a semente de uma cinema feito para crianças das mais diversas idades.



Narc merece a fama que teve. É um belo filme do estreante Joe Carnahan, que trabalhou com a premissa mais velha do cinema policial - a da dupla de métodos diferentes - e obteve um resultado exemplar, surpreendente. Narc acerta ao apostar no menos óbvio, nas soluções imagéticas de fotografia e montagem, criadas para dar o diferencial na narrativa, e na escolha dos protagonistas. Ray Liotta, bem acima da média do que costuma apresentar, e um Jason Patric entregue a um personagem com um tom difícil de encontrar - o que ele faz com precisão. Mas o ponto central aqui é que o filme é muito bem escrito, dribla os clichês e consegue uma eficiência impressionante. A cena que abre o filme, com câmera em movimento (que já não é nenhuma novidade, eu sei), é particularmente impressionante, de uma força visual incomum no atual cinema do gênero. Talvez a solução para o filme policial seja reiventar os clichês.



Psicopata Americano não merece a fama que teve. Não encontra o equilíbrio entre o policial sério que insinua ser e a comédia macabra em que parece tentar querer se transformar. O universo rico de Wall Street é artificial, os personagens são (mal) calculados e tom de sua meia hora final termina sendo tosco. Nem a tão comentada interpretação de Christian Bale, deformado pelos músculos que ganhou, cumpre sua função. Bale oscila e vacila entre o sarcástico e o patético, provavelmente prejudicado pelo personagem mal desenhado que recebeu. Realmente difícil identificar um caminho a seguir. E sendo assim, como seu protagonista, o filme não chega muito a lugar nenhum. Nem quando quer invadir uma personalidade doentia. Nem quando quer rir de todas as discussões que lançou.

NÁUSICA DO VALE DOS VENTOS
Kaze no Tani no Naushika/Nausicaä of the Valley of the Winds, Japão, 1984.
Direção e Roteiro: Hayao Miyazaki.
Elenco: Sumi Shimamoto, Mahito Tsujimura, Hisako Kyôda, Gorô Naya, Ichirô Nagai, Kôhei Miyauchi, Jôji Yanami, Minoru Yada.
Fotografia: Hideshi Kyonen. Montagem: Naoki Kaneko, Tomoko Kida e Shôji Saka. Direção de Arte: Mitsuki Nakamura. Música: Joe Hisaishi. Produção: Isao Takahata.

NARC
Narc, EUA, 2002.
Direção e Roteiro: Joe Carnahan.
Elenco: Jason Patric, Ray Liotta, Krista Bridges, Alan Van Sprang, Karen Robinson, Dan Leis, Lloyd Adams, Lina Felice, Alan C. Peterson, Chi McBride, Booth Savage, Busta Rhymes.
Fotografia: Alex Nepomniaschy. Montagem: John Gilroy. Direção de Arte: Greg Beale e Taavo Soodor. Música: Cliff Martinez, com música adicional de Tobias Enhus e Dan Kolton. Figurinos: Gersha Phillips. Produção: Michelle Grace, Ray Liotta, Diane Nabatoff e Julius R. Nasso.

PSICOPATA AMERICANO
American Psycho, EUA/Canadá, 2000.
Direção: Mary Harron.
Roteiro: Mary Harron e Guinevere Turner, baseado no livro de Bret Easton Ellis.
Elenco: Christian Bale, Justin Theroux, Josh Lucas, Bill Sage, Chloë Sevigny, Reese Witherspoon, Samantha Mathis, Matt Ross, Jared Leto, Willem Dafoe, Cara Seymour, Guinevere Turner, Stephen Bogaert, Monika Meier.
Fotografia: Andrzej Sekula. Montagem: Andrew Marcus. Direção de Arte: Gideon Ponte. Música: John Cale. Figurinos: Isis Mussenden. Produção: Christian Halsey Solomon, Chris Hanley e Edward R. Pressman.

nas picapes: L'Âge D'Or, Legião Urbana.

24 de mai de 2004

BICICLETAS DE PEQUIM

ÉTICA SOBRE DUAS RODAS

Bicicletas de Pequim comete um estranho deslize: peca porque não julga



Existe um sério problema moral em Bicicletas de Pequim: dar um tratamento igual aos seus dois protagonistas, como se ambos estivessem numa mesma postura ética diante de um fato. O filme parte de um ponto muito bom: um adolescente ganha uma bicicleta da empresa onde trabalha e, à medida que ganha seu salário, justifica o presente... até que o instrumento de trabalho é roubado. De um outro lado, um jovem aparece na escola com uma bicicleta. Logo o espectador descobre em que condições desonestas foi conseguido o dinheiro para a compra. O veículo em questão nas duas situações era o mesmo. O diretor Wang Xiaoshuai, como ele mesmo brinca no decorrer do filme (citando A História de Qiu Ju, 92, Zhang Yimou), faz uma espécie de conto moral ao sabor do Oriente.

A intersecção entre os dois protagonistas é conduzida pela lógica do lucro-prejuízo. O filme, que cria vez por outra belíssimos quadros pelos quais você lembra do poder visual e simbólico dos cineastas chineses, se estrutura num duelo de poder e de posse sem que se dê importância às circusntâncias. O objeto do desejo passa de mão em mão até que as duas partes chegam a um acordo. O que parece importar aqui não é a moral da história, mas a dinâmica do processo, o que não é de todo uma visão ruim. O problema é ignorar o conflito entre certo e errado, que se explicita muito claramente desde o começo do longa-metragem. Essa opção narrativa termina eliminando interesses mais profundos sobre as histórias dos dois personagens e suas motivações, tanto que a resolução encontrada pelo roteiro parte de uma ação que não convence muito e termina reafirmando a idéia desse equilíbrio injusto entre as partes. Não é à toa que a melhor cena do filme seja quando, em meio ao corre-corre, os dois se apresentam.

BICICLETAS DE PEQUIM
Shiqi Sui de Dan Che, China/Taiwan, 2001.
Direção: Wang Xiaoshuai.
Roteiro: Wang Xiaoshuai, Peggy Chiao, Hsu Hsiao-ming e Danian Tang.
Elenco: Lin Cui, Bin Li, Xun Zhou, Yuanyuan Gao, Shuang Li, Yiwei Zhao, Yan Pang, Fangfei Zhou, Jian Xie, Yuhong Ma, Lei Liu e Mengnan Li.
Fotografia: Liu Jie. Montagem: Hsiao Ju-kuan e Yang Hongyu. Direção de Arte: Cao Anjun e Tsai Chao-yi. Música: Wang Feng. Figurinos: Pang Yan. Produção: Peggy Chiao, Sanping Han e Hsu Hsiao-ming.

nas picapes: Don't Let Me Be Misunderstood, Santa Esmeralda.

23 de mai de 2004

EM NOME DE DEUS

O BOM É BOM, O MAU É MAU

Peter Mullan faz de seu filme-denúncia um arremedo involuntário de estereótipos



Peter Mullan aprendeu com seu diretor em Meu Nome é Joe (98), Ken Loach, que o cinema pode ser uma arma de denúncia. Em seu segundo longa-metragem atrás das câmeras, ele invade um dos conventos irlandeses onde eram depositadas as mocinhas consideradas mais avançadas pela sociedade paternalista da ilha de Sinéad O'Connor; adolescentes que pecavam algumas vezes apenas porque sorriam excessivamente para os garotos da época ou que tinham o azar de serem estupradas pelos primos. Os conventos eram lugares para se esconder a sujeira dos bastidores familiares. O tema é bastante atrativo, sobretudo pela lógica reacionária do pensamento de quem manda a própria filha para um lugar deste tipo: Em Nome de Deus acompanha como três destas garotas foram parar na sua prisão e abraça uma quarta personagem já dentro do convento.

Mas Mullan carrega nas cores do seu filme e exagera nos estereótipos. Das quatro protagonistas, apenas aquela que não consegue conter sua própria sensualidade ganha uma composição realmente abrangente. Pena que seja a mais fraquinha do elenco e não consiga sustentar a sutileza necessária para um papel do porte. As demais são ingênuas e boas ao extremo ou ainda demonstram desvios psicológicos evidentes, o que corroboraria para entender seu comportamento "mundano". Não parecem personagens reais. Ou inteiramente reais. Mas é a composição das freiras o que mais é problemático no filme: as irmãs são pessoas tão impuras de coração que mais parecem vilãs de contos de fada. O texto destinado à madre superiora por pouco não torna todo o filme um ingênuo e risível espetáculo onde há pouco o que valorizar. A cena da urtiga ainda é o melhor do irregular trabalho de Peter Mullan como diretor.

EM NOME DE DEUS
The Magdalene Sisters, Grã-Bretanha/Irlanda, 2002.
Direção e Roteiro: Peter Mullan.
Elenco: Geraldine McEwan, Anne-Marie Duff, Nora-Jane Noone, Dorothy Duffy, Eileen Walsh, Mary Murray, Britta Smith, Frances Healy, Eithne McGuinness, Phyllis MacMahon, Rebecca Walsh, Eamonn Owens, Chris Simpson, Sean Colgan, Daniel Costello e Peter Mullan.
Fotografia: Nigel Willoughby. Montagem: Colin Monie. Direção de Arte: Mark Leese. Música: Craig Armstrong. Figurinos: Trisha Biggar Produção: Frances Higson.

nas picapes: Someone To Watch Over Me, Sinéad O'Connor.

18 de mai de 2004

CINEMA CATÁSTROFE

CINEMA CATÁSTROFE

Van Helsing traz de volta às telas um gênero clássico do cinema: o filme ruim



Existe uma bela dezena de razões que fazem de um filme, um filme ruim. Uma delas, talvez a maior, é a qualidade do texto que vai parar na tela. O roteiro é a matéria-prima do cinema, mesmo que o que o envolva (fotografia, edição, interpretações, direção de arte, música e, por fim, a direção em si) chame mais atenção e "signifique" mais quando o assunto é criação cinematográfica. Se o texto é ruim, o filme, invariavelmente, vai pelo mesmo caminho. Diálogos não precisam ser críveis ou rebuscados (a fantasia, a bobagem ou as referências não são necessariamente garantias de um filme bom), mas um texto bem escrito é a base para qualquer bom material fílmico. Quando o roteiro em questão é um roteiro adaptado, a exigência de qualidade é maior. E se a obra de referência é conhecida, cultuada e reconhecidamente bem escrita, a responsabilidade do roteirista torna-se imensa: fazer um bom texto e respeitar a competência do original.

Em nome da liberdade artística, expressão que virou justificativa para deturpações de tamanhos variados em textos diversos, não são poucos os pecados registrados na recente história do cinema mundial. Van Helsing, novo filme de Stephen Sommers que vem ganhando enxurradas de dinheiro pelo mundo afora, não se baseia numa obra específica, mas reaproveita um personagem clássico num versão reloaded hi-tech. Van Helsing, o original, é, em poucas palavras, o homem que caça Drácula, o conde vampiro criado por Bram Stoker no romance homônimo do final do século 19 (que ganhou uma versão definitiva para o cinema com Francis Ford Coppola, em 92). Drácula, assim como outros "monstros" legendários, ganhou uma força impressionante nas primeiras décadas de Hollywood. Nos anos 30, o vampiro virou ícone do cinema de terror. Um tipo de filme que fez muito dinheiro e fascinou gerações inteiras, entre elas a do cineasta Stephen Sommers.

Trabalhando para a Universal, dona dos direitos para o cinema das principais criações dos filmes de terror, Sommers resolveu reunir num mesmo filme três dos maiores mitos do gênero: o monstro criado pelo Dr. Viktor Frankenstein, o lobisomem e o próprio Drácula. Para juntar os personagens num só pacote, o diretor/roteirista escolheu a figura de Van Helsing como algoz das criaturas e protagonista do filme. O resultado é um arranjo malfeito que, não apenas deturpa as criações originais (criando novos perfis e "passados" para os personagens e apresentando outros personagens que rearranjam toda a história), mas os coloca no meio de uma trama tosca, com toques de ficção-científica, tão mal escrita que um dos adjetivos mais fiéis ao espírito do filme seria ridículo. Os diálogos são tão constrangedores que os próprios atores (Hugh Jackman já foi um ótimo Wolverine) embarcam no tom engraçadinho da trama e uniformiza o resultado: tudo é absolutamente ruim em Van Helsing.

A questão não é o respeito ao original em si. Mas a qualidade da deturpação. Nem os efeitos visuais, que visivelmente (entendeu? entendeu?) são o que conduz o filme, conseguem fazer o produto final valer. A virtualidade suprema virou justificativa para se criar efeitos cada vez mais perceptíveis onde não importa a trama, mas o efeito em si. Hoje, mais vale um lobisomem babão que pula pra todo lado que uma frase bem escritinha. O armamento de Van Helsing é tão ruim quanto a palhaçada que Sommers criou para explicar a "vida eterna" do personagem. O tom mezzo comédia encontrado pelo diretor tem sua melhor cristalização no Drácula de Richard Roxburgh e no Sancho Pança de David Wenham, mas nem eles conseguem algo além do mediano. O único consolo é que o filme sempre assume o que é. A cena final, com direito a final feliz nas nuvens, é mais patética já escrita nos últimos vinte anos. O mais legal é perceber que um filme deste porte ainda pode despertar um tipo de reflexão: se era pra fazer um estrago nessa proporção, não dava para se criar os próprios personagens em vez de destruir os dos outros?

VAN HELSING
Van Helsing, Estados Unidos, 2004.
Direção e Roteiro: Stephen Sommers.
Elenco: Hugh Jackman, Kate Beckinsale, Richard Roxburgh, David Wenham, Shuler Hensley, Elena Anaya, Will Kemp, Kevin J. O'Connor, Alun Armstrong, Silvia Colloca, Josie Maran, Tom Fisher, Samuel West, Robbie Coltrane e Stephen Fisher.
Fotografia: Allen Daviau. Montagem: Bob Ducsay e Kelly Matsumoto. Direção de Arte: Allan Cameron. Música: Alan Silvestri. Figurinos: Gabriella Pescucci. Produção: Bob Ducsay e Stephen Sommers.

nas picapes: Needle in the Hay, Elliott Smith.

14 de mai de 2004

O QUE PASSOU, PASSOU...

O QUE PASSOU, PASSOU...

Porque o tempo não perdoa quem ousa desafiá-lo



O passado morreu. É isso que Denys Arcand tenta dizer com seu O Declínio do Império Americano (86), filme que voltou aos cinemas brasileiros depois do sucesso de bilheteria que As Invasões Bárbaras (03) revelou ser. Como boa parte dos espectadores, eu fiz o caminho inverso com os filmes de Arcand. Vi a continuação antes do original e, para minha surpresa, percebi que esta ordem permite uma leitura ainda mais clara e metafórica do cinema do diretor. Em As Invasões Bárbaras, Arcand retoma as trajetórias de personagens criados por ele mais de 15 anos antes para falar do fim das utopias e da derrota de um modo de pensar. O cineasta gasta belos diálogos para fazer valer sua versão de que os rebeldes eram nada mais que inocentes e que o tempo faz coisas então importantes perderem seu significado.

Eu, ao contrário de boa parte dos meus colegas que escrevem sobre cinema no universo dos blogues, gostei de As Invasões Bárbaras. Se ele é esquemático e engenhosamente construído para defender a visão do diretor, não vejo grandes problemas nisso já que a visão do diretor não me parece tão equivocada quanto outros textos fizeram crer. A questão, opinião infinitamente pessoal, é enxergar a idéia do filme não como uma constatação sobre as verdades do mundo, mas como uma discussão sobre o tempo e as prioridades de cada época e de cada geração. Muito mais manipulador e maniqueísta, se a questão é essa, é A Paixão de Cristo (04), de Mel Gibson, filme cujos textos a favor, poucos, diga-se de passagem, são tão escrotos quanto as intenções maléficas (poucas vezes eu vi algo tão perverso) quanto a de seus realizadores.

No entanto, retomando a questão inicial, ver O Declínio do Império Americano depois de sua continuação permite perceber que o discurso do filme (bastante provocador em 1986) se esvaiu quase que por completo nos dias de hoje. Os diálogos, quase que completamente voltados para a revolução sexual do anos 80, com mulheres mais altivas e homens mais descaradamente despudorados, ficaram muito velhos, perderam o impacto e, muitas vezes, o sentido. É interessante perceber que as discussões de As Invasões Bárbaras são não apenas mais amplas, como o texto do filme é bem melhor cuidado e mais inteligente. O Declínio do Império Americano passou. Virou passado e, por pouco, não virou poeira.

P.S.: desisti de fazer um texto maior sobre este filme (e sobre seu filhote) porque o tempo passou, o calor do momento virou frente fria e a vontade acabou. Talvez porque, como Denys Arcand tenta dizer em seus filmes, independentemente da forma que usa para tanto, o passado morreu e se revelou sem muita importância.

O DECLÍNIO DO IMPÉRIO AMERICANO
Le Déclin de L'Empire Américain, Canadá, 1986.
Direção e Roteiro: Denys Arcand.
Elenco: Dominique Michel, Dorothée Berryman, Louise Portal, Pierre Curzi, Rémy Girard, Yves Jacques, Geneviève Rioux, Daniel Brière e Gabriel Arcand.
Fotografia: Guy Dufaux. Montagem: Monique Fortier. Direção de Arte: Gaudeline Sauriol. Música: Handel. Figurinos: Denis Sperdouklis. Produção: Roger Frappier e René Malo.

12 de mai de 2004

UM BLOG COM PASSADO

Meu poder mutante é mudar a ordem dos acontecimentos históricos. Eu posso reordenar o tempo e inserir fatos no meu passado. Não é um poder tão ficcional assim. O único passado que eu consigo mudar é o deste blogue. Existe uma ferramenta no Blogger.com que permite mudar a data dos novos posts, que se tornam antigos posts. Meu blogue de cinema foi criado no dia 29 de janeiro de 2003. Sua segunda versão, no Blogger estrangeiro, surgiu no dia 2 de março deste ano. Os posts do blogue anterior estão todos salvos nos meus arquivos pessoais. Desde ontem, passei a criar um passado anterior a esta última data para o Filmes do Chico. Os posts estão sendo reeditados e reformatados aos poucos e inseridos nos arquivos deste blogue. A idéia é poder compilar tudo num lugar só.

Os dois primeiros posts são resultados de visitas minhas ao Centro Cultural São Paulo, quando eu ainda morava na capital paulista, no início do ano passado. São dois posts sobre os seis filmes que eu vi numa mostra dedicada ao cineasta francês Robert Bresson. No primeiro, são quatro filmes: Les Dames Du Bois De Boulogne (45), Pickpocket (59), Ao Azar, Balthazar (67) e Lancelot Du Lac (74). O post seguinte é sobre O Dinheiro (83) e O Processo de Joana D'Arc (62).

À medida que eu vá alimentando meu passado, vou deixar pistas aqui no presente. E quando eu conseguir descobrir como se coloca links para posts específicos, pretendo deixar estas pistas mais visíveis, além de retomar a coluna de links para os filmes comentados, o que muita gente cobra.

Enquanto isso, uma listinha dos filmes resenhados neste blogue até agora:

Alguém Tem Que Ceder, de Nancy Meyers
Anti-Herói Americano, de Robert Pulcini e Shari Springer Berman
Ao Azar, Balthazar, de Robert Bresson
Aqui Favela, o Rap Representa, de Júnia Torres e Rodrigo Siqueira
Benjamim, de Monique Gardenberg
As Bicicletas de Belleville, de Sylvain Chomet
Confidence - O Golpe Perfeito, de James Foley
Les Dames Du Bois De Boulogne, de Robert Bresson
The Dangerous Lives of Altar Boys, de Peter Care
Diários de Motocicleta, de Walter Salles
O Dinheiro, de Robert Bresson
Do Jeito Que Ela É, de Peter Hedges
Elefante, de Gus Van Sant
Glauber, o Filme - Labirinto do Brasil, de Silvio Tendler
A Janela Secreta, de David Koepp
Kill Bill: Vol. 1, de Quentin Tarantino
Lancelot Du Lac, de Robert Bresson
Lugar Nenhum na África, de Caroline Link
Migração Alada, de Jacques Cluzaud e Michel Debats
Na Captura dos Friedmans, de Andrew Jarecki
O Outro Lado da Rua, de Marcos Bernstein
A Paixão de Cristo, de Mel Gibson
Peixe Grande, de Tim Burton
Pickpocket, de Robert Bresson
O Processo de Joana D'Arc, de Robert Bresson
Sob a Névoa da Guerra, de Errol Morris
Swimming Pool, de François Ozon
Túmulo com Vista, de Nick Hurran

11 de mai de 2004

MEDO E DELÍRIO

O vilão interior ataca novamente, mas, mais uma vez, não funciona muito bem



David Koepp tem uma carreira até grandinha no cinema de mistério. No currículo, entre outros, o roteiro de O Quarto do Pânico (02) e a direção de Ecos do Além (99), um filme improvavelmente bom. Sua associação a um texto de Stephen King chama atenção, mas não consegue efeitos realmente significativos. A história do escritor atormentado por um leitor que se diz plageado por ele recorre a um certo tipo de vilão cada vez mais comum no filmes de suspense e terror: um vilão intimamente ligado a sua vítima. A construção narrativa do filme - bem melhor acabado do que as obras do gênero ultimamente - é meio óbvia, apesar da preocupação visível com a plástica do longa. O problema maior talvez seja como o cinema de suspense está exausto. Um gênero cansado, com poucas idéias verdadeiramente novas, e com plots e soluções muito, mas muito gastas. O mesmo King que rendeu grandes filmes de suspende como It (90) e Louca Obsessão (90) inspirou um texto pouco além do razoável para sua última adaptação cinematográfica.

Do que serve um filme de terror ou de suspense se ele não provoca medo? Parece uma visão bastante imediatista, mas se considerarmos que esse tipo de cinema é imediatista isto é o mínimo que se pode pedir. Sem muito interesse pela trama, tempo para prestar atenção em alguns detalhes sobre. Philip Glass surge com uma trilha sonora deliciosa, à antiga, única coisa realmente inspirada na concepção narrativa no filme. Escondida num papel limitado, Maria Bello, muito correta, mostra o sexy uma mulher com olheiras profundas pode ser. John Turturro não diz a que veio. Um bom ator vestindo a carapuça de um personagem tão caricato que chega a ser constrangedor. De resto, o que há de mérito vai para Johnny Depp, que, desde o início - e até a mudança de rumo do seu personagem -, dá ao protagonista um roupagem tão particular que se torna a grande atração do filme, que acontece muito menos do que deveria num gênero onde acontecer é basicamente tudo.

A JANELA SECRETA
Secret Window, Estados Unidos, 2004.
Direção e Roteiro: David Koepp, baseado na novela Four Past Midnight: Secret Window, Secret Garden, de Stephen King.
Elenco: Johnny Depp, Maria Bello, John Turturro, Timothy Hutton, Charles Dutton, Len Cariou, Joan Heney, John Dunn-Hill, Vlasta Vrana.
Fotografia: Fred Murphy. Montagem: Jill Savitt. Direção de Arte: Howard Cummings. Música: Philip Glass. Figurinos: Odette Gadoury. Produção: Gavin Polone.

nas picapes: Elephant Stone, The Stone Roses.

9 de mai de 2004

ANTES DA REVOLUÇÃO

Ou quando Che Guevara pôs o pé na estrada e descobriu a América Latina



Che Guevara é o personagem mais pop da história da América Latina. Camisetas estampadas com o rosto do revolucionário argentino são artigos básicos no guarda-roupa dos pré, pós e dos ainda-adolescentes. É cool ter a cara do homem que virou mito político retratada em alguma peça do vestuário. Mesmo que não se tenha muita idéia de quem ele foi ou do quê ele fez. Diários de Motocicleta, o novo filme de Walter Salles, é sobre o que veio antes. Ou sobre algo que veio antes. E antes de virar Che, Ernesto Guevara foi um estudante de medicina, que junto com um amigo, se lançou pelas estradas da América do Sul em cima de uma moto no início dos anos 50. Diante do hype em torno da figura de Guevara, a escolha do cineasta por uma história do Che pré-revolução parece bem mais interessante do que mostrar a ação política do personagem.

Guevara e seu amigo Alberto Granado não têm grandes ambições quando começam sua viagem. Há algo de brincadeira e de aventura - e é nesse ritmo que o filme segue por boa parte de seu percurso, cheio de namoradas, vacas, paisagens bonitas e quedas de moto. Gael García Bernal mais uma vez entrega um personagem cativante, tarefa que tem desempenhado com destreza desde que surgiu no cinema, mas, num cenário amplamente favorável, é Rodrigo de La Serna que enche a tela com um Sancho Pança bonachão e sorridente. Sem interesses maiores para dra trabalho, Walter Salles tem tempo para fazer o que melhor domina: estetizar seu filme. Trabalha a fotografia em filtros e movimentos, e solta seus personagens ao sabor de uma bela trilha sonora. Durante mais de uma hora, Diários de Motocicleta é um filme sem pretensão, bom de assistir. Depois, ele começa a virar filme sério.

A idéia de uma "viagem transformadora" é um recurso bastante usual em qualquer narrativa, seja cinematográfica ou não. Nada muito original, mas também nada que fuja muito dos efeitos reais de uma jornada, em qualquer nível que ela aconteça. Até a ida à padaria da esquina pode transformar alguém. A passagem entre os dois tons do filme é meio brusca, o que é bem perceptível na narrativa, mas também nunca é ofensiva, o que alguns textos quiseram fazer crer. As primeiras demonstrações do que viria a ser o líder político Che Guevara são um desfecho bastante previsível, mas parecem necessárias ou mesmo fundamentais quando se apresenta um personagem do porte deste. Seria impossível não se contaminar pelo retratado? Provavelmente sim. Mas a contaminação no filme de Walter Salles é, guardando as devidas proporções, bem menor do que a do cartunista Harvey Pekar no cultuadozinho Anti-Herói Americano (Robert Pulcini e Shari Springer Berman, 03), onde os diretores/roteiristas são totalmente dependentes do personagem.

Difícil é concordar com o que muita gente tem falado por aí - de que este é o melhor filme do cineasta - algo bastante complicado de afirmar. Não porque ela seja bom ou ruim, mas porque o cinema de Salles tem um defeito que supera todas as suas boas qualidades: é um cinema com pouca emotividade. Mesmo no poço de lágrimas que pretende ser Central do Brasil (98), o excesso de cálculo atrapalha o efeito dramático. Os filmes do diretor parecem estar todos no mesmo nível (exceto o esquemático Abril Despedaçado, 02), trabalhos feitos com competência técnica e uma tentativa às vezes tola de humanizar os personagens. Nesse sentido, Diários de Motocicleta parece bem mais honesto que os outros, já que desde o início há a intenção clara de mostrar alguém que ainda é um rascunho do homem que viria a ser.

DIÁRIOS DE MOTOCICLETA
Diarios de Motocicleta, Estados Unidos/Grã-Bretanha/Alemanha/Argentina, 2004.
Direção: Walter Salles.
Roteiro: Jose Rivera, com base nos livros Con el Che por America Latina, de Alberto Granado, e Notas de Viaje, de Ernesto Guevara.
Elenco: Gael García Bernal, Rodrigo De la Serna, Jaime Azócar, Ulises Dumont, Facundo Espinosa, Susana Lanteri, Mía Maestro, Mercedes Morán, Jean Pierre Noher, Gustavo Pastorini.
Fotografia: Eric Gautier. Montagem: Daniel Rezende. Direção de Arte: Carlos Conti. Música: Gustavo Santaolalla. Figurinos: Beatriz De Benedetto e Marisa Urruti. Produção: Michael Nozik, Edgard Tenenbaum e Karen Tenkhoff.

nas picapes: A Letter To Memphis, Pixies.

3 de mai de 2004

ENCONTROS E DESENCONTROS

O que será, que será, que filmam os cineastas mais delirantes?



Benjamim é um filme como há muito eu não via no cinema brasileiro. Um filme muito mal escrito. A história, baseada no livro de Chico Buarque, nas telas é um mosaico de cenas que não se explicam direito e que, pior, são muito mal desenvolvidas. A história do encontro de Benjamim, um Paulo José muitas vezes perdido com as indefinições de seu personagem, com Ariella é uma história mal contada. Não dá para determinar bem que é o culpado. Não li o livro, assim como nenhum outro de Chico Buarque, que considero o melhor letrista da música brasileira. Não sei se foi ele quem não soube amarrar sua narrativa desordenada ou se ela foi mal transposta pelos três roteiristas (entre eles o geralmente eficiente Jorge Furtado). Muito menos vi o único filme anterior de Monique Gardenberg (Jenipapo, 96) para poder comparar seu desempenho de criação. A ignorância referencial no entanto me entrega Benjamnim completamente nu e tudo o que eu consigo enxergar no filme é um propósito de fazer diferente sem a capacidade de fazer diferente.

A trama é um drama e depois se revela algo entre o policial e o suspense, mas isso também não importa. Os personagens são mal definidos, suas motivações, confusas (o que não deve ser encarado como um problema, mas que termina sendo) e, no final, banais (não porque eles não tivessem grandes motivações ou que não ter grandes motivações seja necessariamente ruim, mas porque elas não parecem vir a cristalizar algo que realmente justifique a existência da trama). Benjamim começa a perseguir, no bom sentido, uma garota que parece muito com uma mulher por quem ele foi apaixonado trinta anos antes. A relação entre as duas se revela aos poucos, numa narrativa repleta de flashbacks que não chega a incomodar, mas que é formada por cenas que não fluem, onde a ação não vira algo crível, possível, plausível porque não se cria as situações para tanto (ou tão pouco?). De nada adiantam os filtros e a trilha bem cuidada. O fim chega, com mais vontade de fazer barulho que qualquer coisa, e você não sabe bem porque estava ali se não havia uma história para ser contada nem uma experiência sensorial para ser vivenciada. Benjamim não tem motivo.

Mas há que se fazer justiça: Cléo Pires é linda. Absurdamente linda. E está bem melhor do que poderia se esperar. Para ela, a estrela solitária deste post.

BENJAMIM
Benjamin, Brasil, 2004.
Direção: Monique Gardenberg.
Roteiro: Jorge Furtado, Glênio Póvoas e Monique Gardenberg, com base no livro de Chico Buarque.
Elenco: Paulo José, Cléo Pires, Danton Mello, Chico Diaz, Rodolfo Bottino, Nelson Xavier, Guilherme Leme, Micaela Góes, Mauro Mendonça, Ernesto Piccolo, Miguel Lunardi, Pablo Padilha, Dada Maia, Ana Kutner, Ivone Hoffman, Wando, Zeca Pagodinho.
Fotografia: Marcelo Durst. Montagem: João Paulo Carvalho. Direção de Arte: Daniel Flaksman. Figurinos: Marcelo Pies. Produção: Paula Lavigne e Augusto Casé.

nas picapes:
Buddy Holly, Weezer
Hash Pipe, Weezer.

2 de mai de 2004

FILMES DO CHICO - MUTIRÃO CARINA

Eu tenho este blog há um ano e três meses e, vez por outra, alguém me escreve tentando encontrar algum filme perdido, uma trilha difícil ou pedir alguma informação sobre cinema. Na maioria das vezes, não tenho a resposta para as pessoas. Aí sou educado, mando um email de volta e falo que vou tentar ajudar, mas termina não rolando nada (isso sem falar que às vezes deixo para responder depois - e esqueço). Olha que fama vou criar pra mim. Portanto, pensei em criar isso aqui: o mutirão, um espaço pra, de vez em quando, tentar ajudar alguém a perseguir seu sonho (por favor, não exagerem e mandem dezenas de emails... hehehe).

A estreante da seção é a Carina.

Leiam o email dela:

Chico, procuro um filme que tem uns 20 anos e marcou a minha infância, mas esqueci o nome. É a historia de um menino que era careca mas que descobre uma poção magica só que começa a crescer muito cabelo e isso chama a atenção de um cara dono de uma fabrica de pincéis. O menino é seqüestrado. As pinturas feitas com os pincéis do cabelo do menino se tornam realidade. Me ajuda a encontrar esse filme.

Por favor, obrigada.


Eu não lembro do filme mesmo, Carina, mas uma dica é, se você dominar um pouquinho o inglês, vasculhar o search do IMDB. Dá pra procurar por temas. Who knows? No mais, quem souber de alguma informação para ajudar a Carina, por favor deixe seu comentário aqui. Caso ela queira, eu coloco o email dela linkado.

FILMES DO CHICO - MUTIRÃO CARINA
"servimos bem para servirmos sempre"

1 de mai de 2004

ODISSÉIA À FRANCESA

Animação européia aposta na estranheza para vencer pelo diferencial



Vou confessar. Eu sou completamente encantado pelos dois primeiros filmes de Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro (Delicatessen, 91, e Ladrão de Sonhos, 95). Reconheço seus problemas, sobretudo os do segundo, cujo roteiro é frágil como um fio dental, mas seu universo onírico, meio infantil, meio sombrio, e seu desenho são coisas que me fascinam. É por isso que fica difícil esconder uma certa decepção ao sair de As Bicicletas de Belleville, cujo traço já tinha me despertado desejos secretos desde que a primeira foto surgiu na minha frente.

O longa de Sylvain Chomet começa com uma sucessão de seqüências encantadora: do show de TV até as cenas iniciais da velha senhora portuguesa e seu netinho triste. O melhor da tradição do bom cinema francês está ali: personagens encarcerados em suas prisões pessoais e silêncios que revelam bastante, além de uma trilha sonora rica, trabalhada em cima de uma canção deliciosa. Tudo embalado num pacote gráfico impecável, com traços muito distantes do padrão norte-americano (entenda aí Disney ou Nickelodeon), de uma melancolia explícita.

Mas quando o diretor abandona a infância do até então protagonista, a promessa que o filme apresenta aposta numa viagem quase surreal por um universo que parece ter saído de um filme de Jeunet e Caro. Um universo com um quê futurista, porém velho. Não que isso seja ruim. Reciclar idéias não é pecado, mas se valer do visual sem motivações realmente consistentes parece uma saída fácil para buscar o diferencial. A busca que senhora Souza (uma portuguesa, com certeza) empreende começa interessante e quase idílica, mas se transforma numa sucessão de bizarrices que tiram o foco do que realmente importa: a relação entre avó e neto.

O Tiago, um dos melhores textos sobre cinema em blogues, levantou uma questão importante ao falar do filme: a falta de desenvolvimento do personagem do neto. Ele vira outra coisa de uma hora pra outra e ninguém sabe o que ele quer e o que ele pensa. Do contrário, a avó é fascinante em suas ricas e simples expressões e sua obsessão por alcançar seu objetivo. O abismo entre os dois é notável e incômodo. A ausência de diálogos, tentativa talvez de reproduzir a delicadeza dos filmes de Jacques Tati, esbarra justamente nessa falta de propósito. As Bicicletas de Belleville força um pouco a barra da fofura, os limites da estranheza. Apesar de conseguir bons momentos de interação entre plástica e conteúdo, e de exercitar a linguagem, a nota para o longa é apenas o suficiente para passar de ano.

AS BICICLETAS DE BELLEVILLE
Les Trilplettes de Belleville, Brasil, 2004
Direção e Roteiro: Sylvain Chomet.
Elenco: Béatrice Bonifassi, Lina Boudreault, Michèle Caucheteux, Jean-Claude Donda, Mari-Lou Gauthier, Charles Linton, Michel Robin, e Monica Viegas.
Montagem: Dominique Brune, Chantal Colibert Brunner e Dominique Lefever.

nas picapes: Groove Is In The Heart, Deee-Lite.


 
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