PRATO QUE SE COME QUENTE
Tarantino volta do auto-exílio com uma história de vingança cheia de referências deliciosas

Prólogo. Eu ando com preguiça de escrever. Não sei bem o que é. Acho que é fase mesmo. Mas hoje de manhã cheguei em casa resolvido de que tentaria formatar alguns pensamentos sobre Kill Bill: Vol. 1, de Quentin Tarantino, que eu vi no sábado aqui em Salvador. Quando entrei no meu quarto, Uma Thurman, morena, me encarava direto da capa do roteiro de Pulp Fiction, livreto que eu comprei há uns bons anos, pouco tempo depois de algumas visitas ao cinema para ver o filme. Tive certeza de que era a hora de escrever.
Agora é o texto em si. Durante o hiato de mais de seis anos sem filmar, muito se comentou e se especulou sobre qual seria o próximo projeto de Quentin Tarantino. Até uma adaptação de Macbeth, de Shakespeare, estaria nos planos do mais importante cineasta surgido na década passada*. Mas não foi o dramaturgo que inspirou o diretor no novo trabalho. Da obra do bardo, apenas a violência é ponto de encontro com o filme mais recente de Tarantino, que resolveu investigar ainda mais fundo os limites entre o cult e o kitsch e mergulhou numa salada de faroeste e kung fu.
E para contar sua história de vingança, o cineasta recrutou uma parceira de seu filme mais famoso. Uma Thurman. …cause everybody knows she’s a femme fatale…. Sem desmerecer o resto do elenco, é dela boa parte do crédito pelo esplendor visual do filme. Uma mulher linda, absolutamente deslumbrante. E que ainda faz aquilo tudo. “Aquilo”, por sinal, é parte do universo de todos os filmes de Tarantino, que - alguém já parou pra pensar? - só filma histórias de personagens do submundo. Mas que sabe deixar seus bandidos tão atraentes que quem vem vai contra eles é que é o verdadeiro vilão do filme.
Em Kill Bill: Vol. 1, as regras são as mesmas que Tarantino já deixou claras desde 92: referências da cultura pop (entenda como quiser ou não entenda), edição esfacelada (o que sempre funciona bem em seus filmes, mas vira virtuosismo em muitos filhotes), violência (ainda que estilizada) e muito humor e sarcasmo. O equilíbrio entre o escracho e a seriedade é tênue, mas nunca passa do ponto, um dos maiores trunfos do filme que guarda uma diferença de seus irmãos mais velhos: o abandono da verborragia.

Um dos grandes senões do cinema de Tarantino era a necessidade quase que primordial de mostrar suas referências. Os diálogos cheios de citações, com muitas brincadeiras com música, cinema, literatura e o mundo contemporâneo funcionaram durante muito tempo, mas ficaram desgastadas com o tempo e caíram em desuso. O cineasta, muito esperto, se deu conta disso e fala menos do seu novo filme. As referências culturais deixaram o plano da palavra e ganharam forma. Tarantino agora mostra mais do que diz. As imagens contam tudo, fazem as brincadeiras, provocam o espectador. Esta talvez a prova mais concreta de que o cineasta evoluiu. Materializar intenções não é fácil. Um pecado de muito diretor por aí, cheio de boas idéias que conseguem se solidificar.
Sally Menke, a grande montadora dos anos 90, reprisa sua fórmula de rearranjamento de tempo criando curiosos enlaces, mas como filme foi dividido em dois, o processo não parece concluído e a justificativa para desconstruir a narrativa não se mostra suficiente. Único ponto realmente questionável. A estilização estética está cada vez maior. A direção de arte é a melhor já vista num filme de Tarantino. Aqui, mais que adereço, ela é signo. Dá inclusive para se fazer um paralelo entre a evolução visual do cinema de Tarantino com o de Almodóvar. Enquanto espanhol estilizou seus filmes ao ponto de se despedir do brega e adotar um kitsch blasé, Tarantino passou a se preocupar mais com o que mostrar e deixou seu filme mais bonito.
Mas o grande elemento de destaque em Kill Bill: Vol. 1 é a direção de fotografia. Trocar Andrzej Sekula e Guillermo Navarro, dos filmes anteriores, pelo competentíssimo Robert Richardson (Vivendo no Limite, 99) foi um presente que proporciona um espetáculo visual absolutamente delicioso de assistir. Isso fica claro na cena em que a personagem de Uma Thurman tem que enfrentar um bando de dezenas de mafiosos japoneses mascarados de Besouro Verde. Richardson retira a cor e depois a devolve, retira a luz e depois a devolve, e abre um painel de inverno que provoca êxtase visual. Neste momento, a introdução de Don’t Let Me Be Misunderstood, do Santa Esmeralda, é a inesperada trilha sonora.

No entanto, apesar de sua excelência técnica, Kill Bill conquista pelo que sempre fascina nos filmes de Tarantino: os detalhes e a costura. Da cena de abertura, ao som de Nancy Sinatra à aparição de Daryl Hannah (a estrela reloaded da vez) numa seqüência já antológica. E há Chiaki Kuriyama, que desenvolve sua Gogo como uma personagem extremamente sedutora. Mas a parte que me deixou arrepiado mesmo foi a solução encontrada para apresentar a origem da personagem de Lucy Liu. Para um fã de quadrinhos e desenhos, ver a história ser contada em anime foi algo devastador de tão inesperado, que remeteu guardadas as proporções ao livro Gen, de Keiji Nakazawa.
É, é bom sim. Muito bom. A vingança pode ser um prato delicioso se o molho por preparado pelo cineasta certo.
Epílogo. Não sei como terminar este texto.
* Antes que achem que eu estou apenas lançando frases de efeito, explico: é meio inquestionável que a estética e a linguagem dos filmes de Tarantino, Pulp Fiction, em especial, não apenas são as mais influentes dos últimos dez anos, mas ajudaram a desenhar o cinema de hoje.
KILL BILL - VOL. 1
Kill Bill: Vol. 1, Estados Unidos, 2003.
Direção e Roteiro: Quentin Tarantino.
Elenco: Uma Thurman, Lucy Liu, Vivica A. Fox, Daryl Hannah, Michael Madsen, Sonny Chiba, David Carradine, Julie Dreyfus, Chiaki Kuriyama, Gordon Liu, Michael Parks, Michael Bowen, Jun Kunimura.
Fotografia: Robert Richardson. Edição: Sally Menke. Direção de Arte: David Wasco e Yohei Taneda. Figurinos: Kumiko Ogawa e Catherine Marie Thomas. Música: The RZA (e D.A. Young). Produção: Lawrence Bender.
nas picapes:
Changes, David Bowie
Velvet Godmine, David Bowie
Obediência, Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta
Onde Ir?, Vanessa da Mata
Il Grande Duello, Luis Bacalov
Tarantino volta do auto-exílio com uma história de vingança cheia de referências deliciosas

Prólogo. Eu ando com preguiça de escrever. Não sei bem o que é. Acho que é fase mesmo. Mas hoje de manhã cheguei em casa resolvido de que tentaria formatar alguns pensamentos sobre Kill Bill: Vol. 1, de Quentin Tarantino, que eu vi no sábado aqui em Salvador. Quando entrei no meu quarto, Uma Thurman, morena, me encarava direto da capa do roteiro de Pulp Fiction, livreto que eu comprei há uns bons anos, pouco tempo depois de algumas visitas ao cinema para ver o filme. Tive certeza de que era a hora de escrever.
Agora é o texto em si. Durante o hiato de mais de seis anos sem filmar, muito se comentou e se especulou sobre qual seria o próximo projeto de Quentin Tarantino. Até uma adaptação de Macbeth, de Shakespeare, estaria nos planos do mais importante cineasta surgido na década passada*. Mas não foi o dramaturgo que inspirou o diretor no novo trabalho. Da obra do bardo, apenas a violência é ponto de encontro com o filme mais recente de Tarantino, que resolveu investigar ainda mais fundo os limites entre o cult e o kitsch e mergulhou numa salada de faroeste e kung fu.
E para contar sua história de vingança, o cineasta recrutou uma parceira de seu filme mais famoso. Uma Thurman. …cause everybody knows she’s a femme fatale…. Sem desmerecer o resto do elenco, é dela boa parte do crédito pelo esplendor visual do filme. Uma mulher linda, absolutamente deslumbrante. E que ainda faz aquilo tudo. “Aquilo”, por sinal, é parte do universo de todos os filmes de Tarantino, que - alguém já parou pra pensar? - só filma histórias de personagens do submundo. Mas que sabe deixar seus bandidos tão atraentes que quem vem vai contra eles é que é o verdadeiro vilão do filme.
Em Kill Bill: Vol. 1, as regras são as mesmas que Tarantino já deixou claras desde 92: referências da cultura pop (entenda como quiser ou não entenda), edição esfacelada (o que sempre funciona bem em seus filmes, mas vira virtuosismo em muitos filhotes), violência (ainda que estilizada) e muito humor e sarcasmo. O equilíbrio entre o escracho e a seriedade é tênue, mas nunca passa do ponto, um dos maiores trunfos do filme que guarda uma diferença de seus irmãos mais velhos: o abandono da verborragia.

Um dos grandes senões do cinema de Tarantino era a necessidade quase que primordial de mostrar suas referências. Os diálogos cheios de citações, com muitas brincadeiras com música, cinema, literatura e o mundo contemporâneo funcionaram durante muito tempo, mas ficaram desgastadas com o tempo e caíram em desuso. O cineasta, muito esperto, se deu conta disso e fala menos do seu novo filme. As referências culturais deixaram o plano da palavra e ganharam forma. Tarantino agora mostra mais do que diz. As imagens contam tudo, fazem as brincadeiras, provocam o espectador. Esta talvez a prova mais concreta de que o cineasta evoluiu. Materializar intenções não é fácil. Um pecado de muito diretor por aí, cheio de boas idéias que conseguem se solidificar.
Sally Menke, a grande montadora dos anos 90, reprisa sua fórmula de rearranjamento de tempo criando curiosos enlaces, mas como filme foi dividido em dois, o processo não parece concluído e a justificativa para desconstruir a narrativa não se mostra suficiente. Único ponto realmente questionável. A estilização estética está cada vez maior. A direção de arte é a melhor já vista num filme de Tarantino. Aqui, mais que adereço, ela é signo. Dá inclusive para se fazer um paralelo entre a evolução visual do cinema de Tarantino com o de Almodóvar. Enquanto espanhol estilizou seus filmes ao ponto de se despedir do brega e adotar um kitsch blasé, Tarantino passou a se preocupar mais com o que mostrar e deixou seu filme mais bonito.
Mas o grande elemento de destaque em Kill Bill: Vol. 1 é a direção de fotografia. Trocar Andrzej Sekula e Guillermo Navarro, dos filmes anteriores, pelo competentíssimo Robert Richardson (Vivendo no Limite, 99) foi um presente que proporciona um espetáculo visual absolutamente delicioso de assistir. Isso fica claro na cena em que a personagem de Uma Thurman tem que enfrentar um bando de dezenas de mafiosos japoneses mascarados de Besouro Verde. Richardson retira a cor e depois a devolve, retira a luz e depois a devolve, e abre um painel de inverno que provoca êxtase visual. Neste momento, a introdução de Don’t Let Me Be Misunderstood, do Santa Esmeralda, é a inesperada trilha sonora.

No entanto, apesar de sua excelência técnica, Kill Bill conquista pelo que sempre fascina nos filmes de Tarantino: os detalhes e a costura. Da cena de abertura, ao som de Nancy Sinatra à aparição de Daryl Hannah (a estrela reloaded da vez) numa seqüência já antológica. E há Chiaki Kuriyama, que desenvolve sua Gogo como uma personagem extremamente sedutora. Mas a parte que me deixou arrepiado mesmo foi a solução encontrada para apresentar a origem da personagem de Lucy Liu. Para um fã de quadrinhos e desenhos, ver a história ser contada em anime foi algo devastador de tão inesperado, que remeteu guardadas as proporções ao livro Gen, de Keiji Nakazawa.
É, é bom sim. Muito bom. A vingança pode ser um prato delicioso se o molho por preparado pelo cineasta certo.
Epílogo. Não sei como terminar este texto.
* Antes que achem que eu estou apenas lançando frases de efeito, explico: é meio inquestionável que a estética e a linguagem dos filmes de Tarantino, Pulp Fiction, em especial, não apenas são as mais influentes dos últimos dez anos, mas ajudaram a desenhar o cinema de hoje.
KILL BILL - VOL. 1

Kill Bill: Vol. 1, Estados Unidos, 2003.
Direção e Roteiro: Quentin Tarantino.
Elenco: Uma Thurman, Lucy Liu, Vivica A. Fox, Daryl Hannah, Michael Madsen, Sonny Chiba, David Carradine, Julie Dreyfus, Chiaki Kuriyama, Gordon Liu, Michael Parks, Michael Bowen, Jun Kunimura.
Fotografia: Robert Richardson. Edição: Sally Menke. Direção de Arte: David Wasco e Yohei Taneda. Figurinos: Kumiko Ogawa e Catherine Marie Thomas. Música: The RZA (e D.A. Young). Produção: Lawrence Bender.
nas picapes:
Changes, David Bowie
Velvet Godmine, David Bowie
Obediência, Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta
Onde Ir?, Vanessa da Mata
Il Grande Duello, Luis Bacalov