O CLÁSSICO E O CONTEMPORÂNEO EM BRESSON

O cineasta francês é um ser mitológico. Tem que ser chato, metido a intelectual e existencialista. Robert Bresson nasceu no país certo. E escolheu a profissão exata. Essa é a impressão que se tem depois de assistir O Dinheiro (82), um de seus últimos filmes. A idéia, livremente inspirada em Dostoiévski, é boa: depois de receber uma nota falsa e tentar utilizá-la numa lanchonete, homem é confundido com um falsário, condenado e preso. E isso tudo o faz mudar sua atitude diante do mundo de forma radical.
Mas a crônica social pretendida por Bresson esbarra feio com o arquétipo que cria para contar sua história, cheia de lugares comuns e signos gastos, como torneiras abertas e copos caindo no chão. A realização estereotipada (e francamente chata) sofre com outro grave problema: o cineasta, em busca de um naturalismo pleno, só utiliza não atores nos seus filmes. Sem qualquer técnica, a maior parte do elenco deste filme naufraga em suas intenções. O protagonista parece um robô a cada dois passos. E como uma boa idéia não é tudo, O Dinheiro não se resolve.

A impressão inicial sobre Bresson se esvai ao assistir um filme realizado pelo cineasta vinte anos antes. O Processo de Joana D'Arc, uma de suas obras mais famosas, centra sua pouco mais de uma hora no julgamento da santa que terminou queimada na fogueira (espero que ninguém ache que isso é contar o fim da história). Realizado em preto e branco (como o clássico A Paixão de Joana D'Arc, feito por Carl Dreyer, em 1928), o filme explica seu contexto num longo letreiro inicial e parte para uma sucessão de cenas internas, muito limpas visualmente, onde Joana D'Arc é interrogada pela Santa Inquisição.
Mais uma vez, os atores não são profissionais, mas aqui isso não interfere na qualidade do filme. O duelo entre a verborrágica Joana e o bispo-chefe, que dura todo o tempo do longa, é feito com velocidade e texto inteligente. As intenções políticas de Bresson, claramente acintoso com os ingleses, se esvaem numa história bem contada, interpretada e dirigida. A opção pelo visual básico dos cenários, a ausência de cor e o pouco movimento da câmera destacam os atores e o texto. O filme se ergue pela palavra.
P.S.: a maior crítica de cinema norte-americana (pelo menos ela sempre acreditou nisso), Pauline Kael, pergunta: pra quê aquele cachorro? Eu realmente não sei responder.
O DINHEIRO
L'Argent, França, 1983
Direção e Roteiro: Robert Bresson, baseado no livro A Nota Falsa, de Leon Tolstói.
Elenco: Christian Patey, Vincent Risterucci, Caroline Lang, Sylvie van den Elsen, Béatrice Tabourin, Didier Baussy, Marc Ernest Forneau, Bruno Lapeyre, François-Marie Banier, Jeanne Aptekman.
Fotografia: Pasqualino de Santis e Emmanuel Machuel. Edição: Jean-François Naudon. Direção de Arte: Pierre Guffroy. Música: Bach. Figurinos: Monique Durry. Produção: Jean-Marc Henshoz e Daniel Toscan du Plantier.
O PROCESSO DE JOANA D'ARC
Procès de Jeanne D'Arc, França, 1962
Direção e Roteiro: Robert Bresson.
Elenco: Florence Delay, Jean-Claude Fourneau, Marc Jacquier, Roger Honorat, Philippe Dreux, Jean Gillibert, Michel Herubel, André Régnier, Arthur Le Bau, Marcel Darbaud, Paul-Robert Mimet, Gérard Zingg.
Fotografia: Lèonce-Henri Burel. Edição: Germaine Artus. Direção de Arte: Pierre Charbonnier. Música: Francis Seyrig. Figurinos: Lucilla Mussini. Produção: Agnès Delahaie.

O cineasta francês é um ser mitológico. Tem que ser chato, metido a intelectual e existencialista. Robert Bresson nasceu no país certo. E escolheu a profissão exata. Essa é a impressão que se tem depois de assistir O Dinheiro (82), um de seus últimos filmes. A idéia, livremente inspirada em Dostoiévski, é boa: depois de receber uma nota falsa e tentar utilizá-la numa lanchonete, homem é confundido com um falsário, condenado e preso. E isso tudo o faz mudar sua atitude diante do mundo de forma radical.
Mas a crônica social pretendida por Bresson esbarra feio com o arquétipo que cria para contar sua história, cheia de lugares comuns e signos gastos, como torneiras abertas e copos caindo no chão. A realização estereotipada (e francamente chata) sofre com outro grave problema: o cineasta, em busca de um naturalismo pleno, só utiliza não atores nos seus filmes. Sem qualquer técnica, a maior parte do elenco deste filme naufraga em suas intenções. O protagonista parece um robô a cada dois passos. E como uma boa idéia não é tudo, O Dinheiro não se resolve.

A impressão inicial sobre Bresson se esvai ao assistir um filme realizado pelo cineasta vinte anos antes. O Processo de Joana D'Arc, uma de suas obras mais famosas, centra sua pouco mais de uma hora no julgamento da santa que terminou queimada na fogueira (espero que ninguém ache que isso é contar o fim da história). Realizado em preto e branco (como o clássico A Paixão de Joana D'Arc, feito por Carl Dreyer, em 1928), o filme explica seu contexto num longo letreiro inicial e parte para uma sucessão de cenas internas, muito limpas visualmente, onde Joana D'Arc é interrogada pela Santa Inquisição.
Mais uma vez, os atores não são profissionais, mas aqui isso não interfere na qualidade do filme. O duelo entre a verborrágica Joana e o bispo-chefe, que dura todo o tempo do longa, é feito com velocidade e texto inteligente. As intenções políticas de Bresson, claramente acintoso com os ingleses, se esvaem numa história bem contada, interpretada e dirigida. A opção pelo visual básico dos cenários, a ausência de cor e o pouco movimento da câmera destacam os atores e o texto. O filme se ergue pela palavra.
P.S.: a maior crítica de cinema norte-americana (pelo menos ela sempre acreditou nisso), Pauline Kael, pergunta: pra quê aquele cachorro? Eu realmente não sei responder.
O DINHEIRO

L'Argent, França, 1983
Direção e Roteiro: Robert Bresson, baseado no livro A Nota Falsa, de Leon Tolstói.
Elenco: Christian Patey, Vincent Risterucci, Caroline Lang, Sylvie van den Elsen, Béatrice Tabourin, Didier Baussy, Marc Ernest Forneau, Bruno Lapeyre, François-Marie Banier, Jeanne Aptekman.
Fotografia: Pasqualino de Santis e Emmanuel Machuel. Edição: Jean-François Naudon. Direção de Arte: Pierre Guffroy. Música: Bach. Figurinos: Monique Durry. Produção: Jean-Marc Henshoz e Daniel Toscan du Plantier.
O PROCESSO DE JOANA D'ARC

Procès de Jeanne D'Arc, França, 1962
Direção e Roteiro: Robert Bresson.
Elenco: Florence Delay, Jean-Claude Fourneau, Marc Jacquier, Roger Honorat, Philippe Dreux, Jean Gillibert, Michel Herubel, André Régnier, Arthur Le Bau, Marcel Darbaud, Paul-Robert Mimet, Gérard Zingg.
Fotografia: Lèonce-Henri Burel. Edição: Germaine Artus. Direção de Arte: Pierre Charbonnier. Música: Francis Seyrig. Figurinos: Lucilla Mussini. Produção: Agnès Delahaie.